terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Tudo novo de novo

Percebo que algumas pessoas, ao se depararem insatisfeitas neste fim de ano, acabam negando qualquer possibilidade de mudança. A inércia diante do revigorar-se está estampada no negativismo de ações, na falta de amor próprio, no lamentar-se e vitimizar-se diante de um mundo que, na limitada visão dos que sofrem por sofrer, está dia-a-dia empenhado em conspirar contra, em fazer de tudo para que nada dê certo.
Sinto pena dos que assim irão começar um novo ano, sem sonhos ou perspectivas, sem agradecimentos e o reconhecimento de que o que somos, o que queremos e o que conquistamos dependem do que cada um carrega dentro de si. Amor (ao próximo e a si mesmo!), compreensão, amizade, paciência, reponsabilidade, bom senso e bom humor (indispensáveis!), paixão (pela vida, por um amor, pelo trabalho), racionalidade, compaixão e individualidade. Cito a individualidade porque, se carregarmos tudo isso e não trouxermos nossa individualidade junto, acabamos por nos perder pelo caminho, sem saber ao certo quem somos, de nada adiantando tantos sentimentos bons para com os outros se esquecermos de nós mesmos.
Ame-se, revigore-se, reinvente-se. As possibilidades estão todas aí. Um novo ano recomeça e a sensação de que tudo pode ser diferente é o primeiro passo para que você possa buscar quem você realmente é.
Ótimas festas a todos, um natal e um ano novo iluminado!
Até o ano que vem!

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Constatações

Odeio que fujam
Que deslizem
Que se façam de desentendidos
De burros
E de santos.
Odeio que passem adiante
Como se nada fosse
Como se não lhes dissesse respeito
Odeio, odeio, odeio.
No fim
Será uma saída pela direita
Na hora certa
Antes que eu me olhe no espelho
E sinta ímpetos de me odiar também.

Silêncio

O silêncio que por vezes fala, a palvra que silencia.
Contraditórios que dão rumo ao que cada um vivencia.
Esperam pela noite, pelo sono que chega
E invade e entorpece e mais uma vez,
Silencia.
Adormecem.
De tanto saber e conhecer, aceitam, convidam, silenciam.
Silêncio.
Vai raiar o dia.

Pesadelos

Uma noite que não finda
Em sonhos o desespero
O choro seco
A agonia em querer gritar
E não conseguir
Acorda
Procura na cama
Com mãos cegas a tatear
Encontra-o
Ressonando um sono cansado
Suspira aliviada
Ainda não amanheceu
Pode dormir mais um pouco.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Pequenos contos - No seu lugar

Havia quase 10 anos desde que tinha mudado completamente sua vida.
Uma proposta de trabalho foi suficiente para o desvio do rumo de todos os planos já praticamente consolidados, a mudança de cidade e consequentemente, o distanciamento do que fora construído em uma vida toda.
Foi por acaso que encontrou, em uma loja no cento da cidade, uma amiga da antiga turma. Quanto tempo, como você está, todo mundo sentiu tua falta, eu também me mudei, mas e ai guria, como não deu mais notícias? O repertório básico dos encontros nostálgicos que encantam no primeiro momento, para depois deixar uma sensação de vazio, de não mais pertencer a você tudo aquilo que em questão de segundos foi resgatado da memória.
Despediram-se, sem nem ao menos trocarem telefones, e-mail ou qualquer forma de contato, como se isso não fosse necessário, como se no dia seguinte fossem se encontrar, como antigamente.
Passou o resto do dia melancólica, com a sensação de que alguma coisa ficara perdida no tempo, no espaço que antecedeu toda a vida que conhecia desde o dia em que partiu da cidade natal e decidiu que faria tudo diferente.
Sentia saudades das pessoas sim, dos momentos bons que viveu e de tudo que ficara para trás. Mas o que mais doía e dava a sensação de ter perdido algo, era a saudade de si mesma. Da pessoa que era naquele tempo. Não que não estivesse feliz consigo mesma agora, mas era estranho pensar em si e não encontrar mais o que fora.
Será que mudara tanto? E teria sido para melhor? Impossível mensurar. Situações diferentes, idades diferentes, pessoas diferentes, sonhos diferentes.
Chegou em casa, abriu a porta e sentiu o cheiro gostoso de comida que vinha no ar e a música suave que tocava na sala.
Imediatamente, sentiu-se confortada. Ele já a esperava com o jantar, como de costume. Era muita sorte que ela, uma nulidade completa no quesito cozinha, tivesse encontrado alguém que amasse cozinhar.
A melancolia passou, a saudade deu lugar a uma completa certeza de quem ela era e que assim estava tudo no seu devido lugar.Quem fora, o que vivera, estava muito bem catalogado nos melhores momentos de sua vida, nas caixinhas mentais que ao longo do tempo vão se formando na memória.
Não sentiu mais o vazio, nem a sensação de perda. Encontrou-se novamente. Afinal, havia retornado para casa.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Feliz

Do guri que um dia foi
O mesmo sorriso fácil
A teimosia velada que insiste
A doçura da criança que persiste

Homem feito
Faz escolhas
Sentimentos
Regramentos ao seu jeito

Descobrindo a vida
Descobre-se a si mesmo
E olha para dentro
De quem veio
Para quem vai

E assim traça caminhos
Busca verdades
Percorre pessoas
E se diz
Na mais pura literalidade do termo
Feliz.


Para vc, hermano ;)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Espelho

Ao olhar-se a si mesmo,
É preciso ter cuidado
O que vemos é o que sentimos
E o que sentimos às vezes não é o que desejamos

A confusão instalada
Sem motivo aparente
Por vezes demonstra aquilo que escondemos,
O que tememos

O que somos e fazemos,
Nossos sonhos e os medos
Partes de um todo,
Fragmentado
Revelado.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

De família 2

Antes que eu cometa uma injustiça, meu pai, além da orátória, também tem talento na escrita. Mesmo que apenas em textos técnicos ou em discursos políticos, nos idos tempos em que era militante político, vereador no nosso município, devo aqui fazer jus aos seus escritos.
Gracias, papito.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

De família

Descubro hoje que minha veia literária vem de sangue. Achava que o gosto por escrever se devia apenas a um bisavô que até livro de poesias teve publicado. Minha mãe hoje me mostrou uma "coisinha" que ela escreveu, como ela mesma disse. Está até agora se perguntando se foi ela a criadora destes versos, com uma modéstia misturada a um pudor desnecessários...
Já que o computador ainda é um terreno não muito explorado por ela e que um blog ainda está fora dos seus planos por enquanto, ela me permitiu publicar aqui sua palavras:

"Queria saber versos de Borges
Versos de Quintana
Saber discernir sobre coisas,
Solidão, faceirice
Queria prosear, contar causos
Cantar
Olhar o rio e me espichar
Fazer curvas, barulhinho
Andar aprumada,
Com rumo, serelepe
Ir pro mundo."(Maria Valderes Machado Bertholdo)

Minha mãe me surpreende sempre.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Para você

Quando você apareceu eu cá me encontrava em pedaços, tentando reconstruir as coisas dentro de mim. Foi no teu olhar de um azul profundo que eu encontrei a luz que me guiou para sair da escuridão em que havia me perdido.
Tantas semelhanças, tantas diferenças. O tempero de um amor avassalador, de um não sei que de magia, de realidade, de pés no chão. Bem fincados, bem objetivos e, ainda assim, sonhadores.
Por onde andamos, sempre de mãos dadas. Todas as estradas e encruzilhadas, sem haver separação. Meu apoio, meu norte, meu rumo certo. E para o norte, efetivamente voltei, para buscar o aconchego, para encurtar a distância e estar lado a lado.
De tudo que já tenho e ainda quero, é o que me basta para saber que sim, é você. Que sim, não somos perfeitos. Qua às vezes um descompasso, um desencanto, serve para lembrar que é sempre bom resgatar aquilo que de mais doce já nos alimentamos. Eu e você. Você e eu. Na essência, nas verdades.
Acordar hoje foi quase como estar em uma ressaca mal curada ou quando acordamos depois de ter pegado no sono chorando.
Ainda assim, consigo ver os olhos azuis que me arrastaram para a vida que hoje quero, que hoje tenho e que, de mais a mais, não poderia ser mais exata, mais sonhada, mais merecida. Tanto para mim quanto para você.
Amo-te. Com todos os momentos. Com todas as palavras. Com todas as certezas e incertezas. Com todos os abraços e aconchegos. Com todo estar só e os desencontros. Com todos os silêncios e as conversas. Amo-te.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

I don't know

Às vezes uma angústia que não passa, um não sei o que de sentir-se naufragando, um mar de dúvidas e pontos de interrogação. E isso é entre ela e ela mesma. Nada tem a ver com as criaturas que a cercam. Essas só trazem certezas, pontos de apoio e segurança. Escreve para ver se passa, se encontra ou descobre o que a faz sentir-se por vezes tão pequena, tão descabida em si mesma.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Vida

Dar um pouco de si
Juntar um pouco do outro
A vida que se renova
O presente que se faz constante
O futuro que se aproxima latente
E a natureza que começa a chamar
Antes disso, o egoísmo a ser vencido
A individualidade dando espaço à doação
Total e absoluta
Um caminho a ser percorrido
Só precisam do momento e
Do tempo
O resto se constrói.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Day by day

Descompasso
Desencontro
O que eu faço
O que eu conto
O silêncio necessário
O falatório descabido
Um minuto para pensar
Respirar
Desconsiderar
Vamos recomeçar?
Afinal, amar, viver, conviver
E por fim entender.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Momento love history


Em uma recente conversa com uma amiga, surgiu a idéia para este post. Ela me relatava a dor que passou durante sua recente separação, toda a angústia, a desilusão e a sensação de ter perdido o chão em razão de se ver só, sem o alguém que ela tanto amava. Isso tudo resultou em um sentimento de poteger-se por parte dela e a convicção que não irá nunca mais relacionar-se assim, depositando todas as fichas em uma pessoa e que relacionamentos no fim só dão errado e que não vale a pena buscar, acreditar, envolver-se.
Isso me fez pensar que já passei por isso, assim como 99,9999% das mulheres deste mundo...
O diferencial é que nunca perdi a esperança e sempre acreditei, sim, de pé junto, que um dia iria sim encontrar alguém que valesse a pena. Hoje me considero uma felizarda pois, como já expressei num post, tenho o amor que queria. Mas isso aconteceu não porque depositei todas as fichas nessa pessoa. Ao contrário, depositei todas as fichas em mim.
Acredito que você só consegue ter um relacionamento sadio, verdadeiro e que realmente te faça feliz se você estiver 100% por você, para você e pensando em você. Egoísmo? Não, pelo contrário. Só acredito que o amor acontece quando não há dependência, quando cada uma das partes sabe exatamente quem é e o que quer da vida, quando tem plena consciência do que pode oferecer ao parceiro, o que quer receber dele, deixando tudo isso bem claro.
Primeiro é necessário ter amor próprio e saber preservar-se, para então poder amar o outro e saber receber esse amor. Apaixonar-se e viver intensamente uma paixão é muito bom, a química produzida pelo corpo é algo indescritível e insubstituível. But, não é para sempre. O melhor disso tudo é quando se consegue chegar ao tão sonhado amor. Aquele sereno, descomplicado e que, na maioria das vezes, é duradouro. Sim , porque, posso ser romântica e tudo o mais, mas sei que em alguns casos, as coisas não dão tão certo, o tempo pode ser implacável e a vida uma montanha russa. Ainda assim,não deixo de acreditar. Em mim. Nele. Em nós.

Mas vamos parando por aqui, por que pelo que me consta, o Divã é em outro blog, ehehe.


"Sou dos que acreditam que a felicidade é possível, que o amor é possivel, que não existe só desencontro e traição, mas ternura, amizade, compaixão, ética e delicadeza. Penso que no curso de nossa existência precisamos aprender essa desacreditada coisa chamada "ser feliz". (Vejo sombrancelhas arqueando-se ironicamente diante dessa minha romântica afirmação). Cada um em seu caminho e com suas singularidades."
Lya Luft

Novos ares

Decidi mudar um pouco o layout do blog, estava achando um pouco poluído...como não me desfaço de jeito nenhum da minha ovelhinha e do meu porquinho, o jeito foi tirar um pouco a cor do blog...mas gostei mais assim!! De resto, tudo continua igual...sem cerimônias!

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Pequenos Contos - Solidão

Chegou em casa cansada, como no resto da semana. Jogou a bolsa sobre o sofá. Na poltrona ao lado o gato espreguiçava-se, levantando lentamente, ronronando. O felino pulou suavemente e enroscou-se por entre suas pernas, sua maneira de dizer bem vinda.
Lembrou que não havia passado no mercado e que provavelmente a geladeira estaria vazia, cena que a fez imediatamente pensar no barulho de grilos durante a madrugada.
Tirou os sapatos, sentindo o piso frio. Um banho quente era tudo o que precisava, uma toalha macia e um pijama confortável. Tentou ascender a luz do banheiro, mas não obteve resposta. Lembrou de umas velas aromáticas que tinha comprado em uma lojinha de produtos exotéricos. Não tinha pensado em usá-las assim, mas, vá lá, de outra forma não iria usar, pelo menos por enquanto. Ascendeu as velas e ligou o som. Enquanto enchia a banheira olhou-se no espelho. O efeito da luz das velas dava uma coloração diferente ao seu rosto. Ficou ali, se olhando, procurando não sabia bem o que. Sorriu, fez careta, perguntou como estava. Respondeu para si mesma que bem, com um sorriso amarelo. Nova expressão, agora de interrogação. Sim, você esta ficando louca, pensou.
O gato ronronava de novo aos seus pés. Abaixou-se e perguntou se ele achava que ela estava ficando louca. Ela mesma respondeu que sim, afinal estava no meio do banheiro, semi-nua, à luz de velas conversando com seu gato, logo após ter estabelecido uma franca conversa com o espelho.
Definitivamente preciso de alguém para conversar, ou de um bom vinho prá dormir melhor.
Foi até a cozinha, mas não encontrou nada. Lembrou que a última garrafa há muito se perdeu, numa noite em que não se sentia tão só.
Voltou ao banheiro, entrou na banheira quente e fechou os olhos. Começou a tocar uma música que há muito não escutava, mas que a fazia sentir vontade de chorar sempre, e sabia bem porque. Madeleine Peyroux entoava nos seus ouvidos, de forma doce, melancólica, a melodia que a embalou naqueles breves momentos em que uma felicidade doída se misturou com uma tristeza cortante.
"Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic 'til I'm gathered safely in

Lift me like an olive branch and be my homeward dove

Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

Let me see your beauty when the witnesses are gone
Let me feel you moving like they do in Babylon
Show me slowly what I only know the limits of

Dance me to the end of love
Dance me to the end of love..."

Haviam dançado no meio da sala, na noite em que ele partiu. Sabia que era a última vez que o veria, mas ainda assim nutria uma falsa esperança, um desejo quase ingênuo de que no último momento ele diria que ficaria, que ela era mais importante que qualquer cargo, em qualquer multinacional, em qualquer país, em qualquer tempo.
A música terminou, despertando-a para uma escuridão quase total, em que as velas definhavam e a água já esfriava.
Colocou o pijama e foi até a cozinha. Apesar do almoço ter sido o último contato com qualquer coisa que lembrasse uma refeição, não sentia fome. Fez um chá e, apenas por amor ao organismo, pegou algumas bolachas que sua vizinha, uma mãe-esposa-rainha-do- lar-impecável, havia feito a gentileza de dar-lhe, com aquele inconfundível sorriso em que um misto de pena e compaixão a deixavam furiosa, frisando que ela mesma tinha feito, uma receita da família, herança de sua mãe.
Aconchegou-se por entre os travesseiros e o edredon. O gato já se aninhava nos pés da cama. Chegou a pegar o livro que havia começado a ler ainda na outra semana, mas não conseguiu chegar até o fim do capítulo. O sono implacável era como um alento à sua solidão. Dormiu o sono dos justos, diria sua mãe. Mas a ausência de sonhos determinava que aquele não era o sono dos justos, mas de alguém que ao ter, algum dia, se dado ao luxo de sonhar acordada, via agora a vida passar em preto e branco, desejando que a música nunca tivesse terminado de tocar.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

O meu amor


Já quis ser alguém que correria o mundo. Houve tempos em que só conjugava a vida na primeira pessoa. Acreditava no eu e em mais ninguém. Um dia conheceu o amor. Mas aquele amor que vem depois da paixão e não vai embora. O amor que acalma, que traz alegrias e tristezas, para se ter certeza de que se está vivo. Amor que de tempos em tempos, reascende a chama da antiga paixão. É amor de amantes, de amigos, de companheiros. De risos, de estar junto sem nada fazer. Amor de viagens, de domingos de chuva e de sol. Amor de novela das oito, tanto no ser quanto no assistir. Amor que ajuda a crescer, a pensar e às vezes a ser um tanto insano. Amor que protege, que cuida com carinho. Amor daqueles sem tamanho, com infinitas possibilidades. Amor com bom humor, pois rir é o combustível da alma. Amor de olhos azuis, abraço envolvente e uma generosidade cativante. Amor que fez com que o nós ocupasse um espaço especial, sem que para isso o eu fosse esquecido. Amor compartilhado, retribuído. Amor sem condições, sem medos. Amor que enche o espírito e o coração, faz a mente ficar sadia e a pele rejuvenescer. Amor que por enquanto são dois, mas de tão grande, espera pelo momento em que serão três, ou quem sabe quatro? Amor que deve ser dividido, que quer ser mostrado, que merece ser escrito.
Ilustração Jana Magalhães

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Pequenos contos - A viagem

Terminou de conferir tudo que tinha arrumado na mala. Roupas pesadas, roupas leves, tênis, botas, sandálias, chinelos. Casacos estava levando apenas dois, sabia que no fim acabaria comprando outro por lá mesmo. Biquini o da terrinha. Comprar biquini no exterior não dá, não é a mesma coisa. E se for comprar um modelo braisileiro, será apenas prá pagar os olhos da cara. Mas nem sabia se iria usar. Estava levando por pura precaução.
Um ano fora. Será que vai passar rápido? O suficiente para voltar outra pessoa? Fotos, livros (para o caso de sentir falta do bom português), até o travesseiro de todos os dias. Pode ficar longe do pai, da mãe, dos irmãos, do cachorro que já estava ficando deprimido, pressentindo a partida. Mas do travesseiro, ah, esse não. As noites só são realmente bem dormidas se for com ele.
Sentou em cima da mala para fechá-la. Ter conseguido colocar tudo em uma única mala já foi uma proeza. Estava agora pensando na sucessão de fatos que a levaram a estar ali, sentada em sua mala, com uma passagem nas mãos.
Considerava o ponto inicial de tudo a tarde em que teve que ouvir aquelas palavras embargadas, o choro contido. Não a amava mais. Tinha um grande carinho, sim, mas era só. Pensou que teria sido melhor se ele dissesse que a odiava. Ficou ali, olhando para ele, tentando entender o que estava acontecendo. Não conseguiu dizer muito. Aceitou a situação, abraçaram-se e ele partiu.
Começava então a sucessão de novos fatos, novos olhares, novas fugas.
O término da faculdade trazia a sensação de não saber o que fazer, que rumo seguir. Iniciou um curso de fotografia, mais para se distrair, observar, ao invés de ser observada.
Ao final do curso, um dos professores entregou-lhe um folder contendo informações acerca de uma espécie de extensão, por assim dizer, do curso que acabara de concluir. Spéos Paris Photographic Insitute. Paris. Já havia pensado várias vezes em ir para Paris. Parecia um tanto quanto impossível que fosse para lá nessas condições. Sozinha, com uma câmera não mão e quase nada de francês. Somente o básico, absorvido em um rápido curso intensivo feito em umas férias de verão.
E agora estava ali, sentada em cima de uma mala, com o cartão de embarque em mãos. Embarque no portão 8, às 18h50. Destino: Aéroport Roissy-Charles-de-Gaulle, Paris.
Estava feito. A ansiedade já havia dado lugar a um início de melancolia. Uma espécie de saudade antecipada. O estranho é que o que sentia não era pela família que não veria por exatos 12 meses. Nem por ele, que há tempos já havia se acostumado com o vazio deixado.
Era uma saudade dela mesma. Uma sensação de que na volta, não seria mais o que era naquele exato momento.
Lembrou que somente decidiu se inscrever no curso depois de ler em algum lugar que
a melhor maneira de se reinventar é despir-se de tudo o que você já foi, afastar-se de tudo o que te formou, para depois regressar e encontrar um novo eu.
Reinventar-se. Era essa a palavra chave. Foi essa ânsia por uma metamorfose que a levou onde se encontrava agora.
Guardou o cartão de embarque na bolsa, junto com a carteira, a medalha de Nossa Senhora Aparecida dada pela mãe e um livro para ler na viagem. A máquina fotográfica, comprada recentemente, daquelas mais profissionais, carregava em mãos. Quase profissional, na verdade, afinal, não era prá tanto assim o seu dom com fotografia. Mas já era um começo. Ou melhor, um recomeço.
Suspirou, como se isso bastasse para estabelecer o fim de um ciclo e o início de outro.
Paris... Paris. Paris!!Repetiu em pensamentos.
Sua mãe bateu na porta do quarto. Estava na hora, tinham que sair, para não correr o risco de atrasar.
Lançou um último olhar em tudo ao seu redor. Tirou uma foto do quarto, prá lembrar como era antes. Tinha esse problema: gostava de guardar as memórias de forma bem viva, nutrindo o passado, não importando quão doloroso pudesse ter sido. O mural com recados e fotografias ainda intacto, com todas as memórias ainda ali, latentes, silenciosas.
"Mãe, me faz um favor? Antes de eu voltar, você encaixota e guarda todas essas fotos e o resto de tudo que está no mural?". A mãe respondeu que sim, só balançando a cabeça, com um ar de cumplicidade.
A mãe saiu arrastando a mala pesada, gritando para o pai que estavam descendo, que ele já deveria estar tirando o carro da garagem.
Fechou a porta, como se estivesse fechando uma etapa de sua vida, virando a página de uma história. Pensou novamente no "reinventar-se". Olhou a foto que acabara de tirar do quarto que deixava. Sorriu e a apagou da memória da máquina.

domingo, 2 de novembro de 2008

Copiar e colar

Direto do blog da minha cara Bípede, alguém que ama livros tanto quanto eu, e que descreveu essa paixão com exatas palavras, o post "livros doces livros". De diferente, é que eu gosto da feira do livro de Porto Alegre. Quando morei na capital me deliciava andando por todos os corredores...o engraçado é que nunca comprei nenhum nessas andanças, mas nunca tinha parado para pensar nisso...mas vamos ao post da minha amiga virtual:


"Começou a feira do livro. Eu não gosto da feira do livro. E também não tenho nada contra quem gosta. Não aprecio porque escolher um livro é muito mais do que comprá-lo. Porque eu preciso olhar a capa, tocar o papel, cheirar as folhas e ler um trechinho até me decidir, e na feira tem de tudo, menos tempo e espaço. E é preciso interesse, para não dizer envolvimento, na hora de escolher um livro, porque eles carregam mais que histórias. Livros são como um lar, doce lar. Não são objetos inanimados e solitários, ainda que assim eles passem a maior parte do tempo. Eles nos abrigam e acolhem, oferecem facetas, sentimentos e idéias a qualquer hora e em qualquer contexto. Ignoram nossas olheiras, nosso mau-humor, nossas mesquinharias. Simplesmente se entregam e sempre. Nada como ler o mesmo duas, três, quatro, cinco vezes.Livros, quando de verdade, nos transformam e mudam, e como, dentro das próprias palavras."

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Lista básica


Geralmente no fim do ano se faz aquelas listas de new year resolutions e metas para o ano que se aproxima. Decidi fazer a minha hoje mesmo, porque os desejos estão aumentando e as responsabilidades também, porém falta ainda um pouco de determinação.
Minhas metas acredito que são bem modestas e até fáceis de serem cumpridas, só dependem de mim. O que está faltando, confesso, é aquele gás de fazer com vontade, convicção, colocar em prática de forma realmente eficaz. Algumas coisas já venho praticando, mas de uma forma não muito satisfatória, pelo menos não estou passando no meu próprio iso 9001 (e que estou pensando em chamar de iso 2009, pois nesse ano que se aproxima, acreditem, tudo vai ser diferente).
Então, prá registrar, em 2009 quero:
1. Estudar, estudar muito, porque o que tenho feito não é suficiente (preciso falar com a Bípede);
2. Conseguir guardar um dinheirinho e não torrar todo o meu salário em bobagens (nisso o maridão já se ofereceu para me doutrinar);
3. Continuar fazendo pilates e jogando vôlei e não desistir como já fiz com a yoga, a musculação, a natação, a ginástica...(sai de mim bicho preguiça, este corpo não te pertence mais!);
4. Ser mais paciente com algumas pessoinhas que me cercam, às vezes perco o controle muito fácil (mami, querida, prometo ser uma filha melhor!);
5. Evitar descontar minhas frustações e agonias na comida ( terei que banir todos os chocolates escondidos pela casa!);
6. Plantar minha hortinha orgânica na sacada (isso já prometi fazer no próximo fim de semana, se fizer, prometo tentar não matar todas as plantinhas!);
7. Sair mais com as meninas, tipo clube da Luluzinha mesmo(é imprescindível um momento just girls em prol da sanidade mental de qualquer criatura do sexo feminino);
8. Terminar minha monografia da pós (essa deveria estar logo após estudar muito, mas confesso que só lembrei agora...a ordem não importa, vou ter que cumprir tudo de qualquer forma!);
9. Assistir menos televisão (ai minha novela das 8...);
10. Escutar mais música, selecionada por mim e não o que toca nas rádios (para isso, acho que vou precisar de um mp3...ou seria mp4? Acreditem, não tenho nenhum dos dois, nem sei como funciona!);
11. Caminhar, caminhar, caminhar muito e deixar o carro na garagem (isso vai ser até fácil, porque acho que até 2009 eu já terei conseguido vender o meu carrinho...alguém se interessa?)
12. Cumprir tudo isso que listei (vale isso? prometer que vai cumrpir com todas as promessas?).
Bom, essa minha listinha, admito, pode ser iniciada ainda hoje. Mas é que parece que, assim, fica o compromisso.
Dentre tudo isso, continuo querendo manter meus queridos ao meu lado, amando e vivendo cada momento único que é estar com eles, minha família e o meu amor, sem esquecer os amigos. Mas isso não precisa de promessas, mas sim de agradecimentos, todos os dias, por eles existirem.
Que venha, então, 2009. Sabe que até já me animei?

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Os dias


Nada.
Não.
Talvez.
Não sei.
Ler.
Reler.
Aprender.
Fazer.
Comer.
Escrever.
Surpreender.
Desfazer-se.
Escurecer.
Dormiu.
Partiu.
Não viu.
Sonhou.
Acordou.
Pulou.
E tudo de novo, recomeçou. Nada, não...

O ninho


Há alguns meses recebi inquilinos que não foram convidados. Um casal de andorinhas decidiu fazer seu ninho na minha área de serviço, mais precisamente no lustre, plafon, ou o que quer que seja o nome dado àquilo que fica sobre a lâmpada.
Achei uma graça, às vezes ficava só observando eles carregarem folhas, gravetos e todo tipo de material disponível que pudesse servir para formar o ninho. Isso levou alguns dias, até que percebi que apenas uma das andorinhas (provavelmente o macho)é que saía com mais frequência do ninho.
Mais alguns dias e começaram a cair cascas de ovo, penas e alguns dejetos não muito bonitinhos. Apesar disso, o barulhinho, quase como conversas, dessas criaturas pela manhã e no fim da tarde sempre me agradou. Eu literalmente tomo café da manhã ao som de passarinhos, pois a cozinha tem uma porta e uma janela que dá diretamente na sacada da àrea de serviço, local escolhido pelo belo casalzinho.
Acontece que ontem cheguei em casa e me deparei com uma quantidade de dejetos muito maior que o usual. Considerando que minha faxineira não compareceu ao serviço, deduzi que eu não tinha noção nem da metade da sujeira que a família de andorinhas vinha fazendo, pois ela sempre limpava tudo antes que eu percebesse.
Me revoltei com a cocozada das criaturas e decidi que iria despejar os inquilinos!
Retirei o negócio da luz que servia de ninho, com bastante cuidado, afinal não sabia bem o que tinha lá.
Dei de cara com quatro bebês andorinhas, quietinhos, me encarando. Três estavam bem no centro do ninho, amontoados uns nos outros. O quarto já estava mais afastado, parecia mais independente. Quando coloquei o ninho na mesa, esse quarto pulou para o chão. Quase morri de susto e de remorso, imagina matar um bebê andorinha assim, sem querer?
Me senti um monstro, me bateu uma tristeza, fiquei envergonhada comigo mesma. Imagina que eu havia pensado em desfazer um ninho, o local mais seguro prá quatro criaturas inofensivas!
Não tive dúvidas, juntei o saltitante do chão, coloquei de volta no ninho e repus o ninho/plafon/lustre no teto de novo.
Fiquei esperando a andorinha mãe voltar. Ela veio e, graças a Deus, não notou nada, acho eu.
Hoje pela manhã, enquanto preparava o café, escutei os primeiros sons da família. Sol nascendo, passarinhos cantando. Me dei conta do privilégio que é ter, na sua casa, canto de pássaros, sem que para isso eles estejam em gaiolas.
Abri a porta e olhei feliz meus queridos inquilinos. Dizem que depois que os filhotes crescem, eles abandonam o ninho. Vou ficar esperando que na próxima estação eles retornem, para mais uma temporada na minha sacada.

Ilustração Jana Magalhães

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Por isso escrevo

Quando comecei a escrever novamente, tinha a sensação de que realmente seria diferente. Como já disse no primeiro post, minha primeira experiência com blogs havia sido desastrosa!
Agora, alguns posts depois, me deparei com uma agradável surpresa de uma certa Bípede Falante, que acompanho desde os primeiros dias do meu Sem Cerimônias.
Não lembro como cheguei a ela, mas lembro bem da primeira impressão que tive ao ler suas memórias: "nossa, às vezes também me sinto assim!". Sua maneira de escrever é leve, sem deixar de ser verdadeira. A maneira como expressa seus sentimentos me fascina, dá a sensação de que não estou sozinha em alguns devaneios...
A sensação de que este blog seria diferente deu lugar a uma certeza: está sendo diferente sim! Tudo o que eu queria era somente isso: escrever para pessoas legais, como minha cara bípede e todos os que por ventura passarem por aqui e sentirem que realmente, podem entrar sem cerimônias.
E quanto a você, Bípede, saber que você gosta de estar por aqui no Sem Cerimônias me deixa toda prosa e orgulhosa, pois não é diferente quando acesso, todos os dias, as tuas memórias, tão doces, lúdicas e verdadeiras, assim, como a vida tem que ser.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Pequenos contos - A escolha

Juntou os pedaços que ainda restavam. Era um antigo vaso chinês que sua mãe jurava ter sido comprado em uma das melhores casas de decoração, quando sua avó ainda viajava pelo mundo.
Agora somente cacos. Bem estilhaçados, espalhados pela sala. Em baixo da mesa, cobrindo o tapete e o sofá. Partiu-se em mil pedaços, assim como seu coração, que batia descompassado. Podia houvir ainda a última frase e a batida seca da porta: "Prá mim chega". Assim, simples, seco, cortante.
Atirar o vaso contra ele definitivamente não foi a melhor idéia, mas também não foi o motivo da partida.
Anos de desgaste, de brigas, de encontros e desencontros. Mais desencontros, é verdade. A cada discussão, o pedido de desculpas. O silêncio das palavras não ditas e aquela pontinha de esperança estúpida, a cegueira da rotina, a acomodação do "a gente supera".
A gota d'água veio de uma dessas bobagens que sozinhas, são exatamente isso: meras bobagens. Porém, quando carregadas com o peso de todo um cansaço e de um nó na garganta, tomam proporções capazes de finalmente colocar um ponto final em uma relação em que mais se perdia do que se ganhava.
O fato de não conseguirem decidir de forma pacífica um hotel para uma viagem de fim-de-semana iniciou toda a discussão, que após todo o discurso de acusações e ofensas, juntamente com uma restrospectiva de todos os erros cometidos no passado, teve um desfecho quase cômico, não fosse a vontade desesperada de chorar e sair na sacada pedindo prá ele voltar. Um vaso quebrado, o silêncio na sala e o estranho sentimento de alívio e saudade, porque afinal, a esperança estúpida já começava a dar sinais de sua presença.
Mas agora tinha a plena noção e certeza de que ele não voltaria. O vaso tinha sido demais. Era grande, pesado, não sabia como tinha conseguido levantá-lo e ainda arremessá-lo em sua direção. Sabia, porém, que havia chegado no seu limite e que isso significava não mais voltar atrás, não mais procurar motivos para tentar de novo.
Terminou de varrer e recolher os cacos azuis. Colocou-os em uma caixa e guardou no fundo do guarda-roupas. Não conseguiu jogar no lixo. Era como se estivesse jogando fotos ou cartões, desprezando uma vida toda de memórias.
Ligou para o hotel que havia escolhido. Foi sozinha, sem saber bem o porquê, mas com a sensação de que afinal, era a melhor escolha.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

À Deriva


Uma amiga me pediu para escrever algo que fizesse com que as pessoas pudessem refletir, pensar um pouco sobre a vida. Tarefa difícil, até porque cada um tem uma visão diferente quando se trata de colocar a mão na consciência. Mas nessa semana, e olha que hoje é apenas terça-feira, já estou com uma sensação de que estamos à deriva, navengando em águas perigosas. Poderia discorrer sobre os absurdos que assistimos diariamente nos jornais: assassinatos, sequestros, abandonos, corrupção, nepostismo, inércia política, acidentes causados por buracos nas rodovias, incêndios criminosos...e por aí vai. Tragédias e anomalias sociais estão por toda a parte. O que realmente me incomoda e faz com que me sinta nauseada é a passividade com que nos colocamos diante de tudo isso. Tudo normal, fazendo parte da rotina, invadindo nossas vidas, nossas casas, sem avisar. Às vezes penso que recebemos tanta informação que fica difícil processar, memorizar, refletir e tirar conclusões acerca do que está acontecendo ao nosso redor. Somos invadidos de forma brutal por fatos, versões, acontecimentos que deveriam fazer diferença, mas que no fim são apenas algumas palavras proferidas por Fátimas e Bonners, em uma imensidão de letras e sons incongruentes, porque afinal, nessa hora estamos cansados, o dia já foi pesado o suficiente, a rotina do nosso mundinho já nos chateou bastante e no outro dia começa tudo outra vez. E aí, o que eu tenho a ver com tudo isso? Se alguém tiver uma resposta satisfatória, por favor estou aguardando, pois há momentos em que não sei exatamente o que estamos fazendo por estas bandas, o mundo às vezes me parece um lugar estranho, uma terra de ninguém. Alguém arrisca uma reflexão?

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Expectativas


A vida é feita de expectativas. As expectativas são feitas pelas pessoas. E as pessoas são diferentes. Aqui mora o perigo. Você faz tudo que está ao seu alcance. Tenta não esquecer nada, se esforça ao máximo para andar lado a lado com a perfeição, mesmo sabendo que ela não existe e que você pode falhar. No fim, você não espera por louros, troféus ou cartas de parabenização. Você só espera que o outro considere o que você fez, por mais que não tenha atendido à todas as expectativas, pois afinal, você deu o melhor de você no momento em que era possível fazer isso. Você errou? Falhou? Não deu o máximo do seu esforço ou potencial? Algumas vezes pode ser que sim, porém, em outras, apenas não atendeu às expectativas de alguém que não tem o mesmo olhar que você tem, o mesmo ritmo. Nessas horas é preciso jogo de cintura, ponderação (de ambas as partes) e muita paciência. As expectativas foram feitas para se ter um ponto no horizonte, um objetivo a ser alcançado, e não uma tortura diária de frustações. Por isso é preciso ficar atento, não às expectativas em si, mas sim nos pontos no horizonte. Às vezes não chegamos neles exatamente como gostaríamos. Porém, o que realmente importa é chegar lá.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Hermano


Hoje a criatura mais doce que conheço faz 22 aninhos. Ele veio quando eu tinha três, quando éramos três e depois viramos quatro. O bendito fruto entre várias mulheres: mãe, irmã, avós, tias, primas, amigas. Vai ver é por isso que tem no sorriso uma malícia que parece ingênua, nas palavras uma força que contagia e nas atitudes a doçura que para mim é a palavra que o define. Mas quando quer, esse gurizinho sabe ser valente, exigente e às vezes até difícil. Quando acorda num bad day, esqueça: é preciso dormir e acordar no outro dia para recuperar o bom humor.
Tudo que faz é do seu jeito. Para alguns pode ser um jeito meio torto, às vezes até confuso. Mas pode ter certeza, ele sabe o que está fazendo. E só faz se quiser. Caso contrário, dá um jeito de não fazer ou de que outro o faça, voluntariamente!
Amigos o rodeiam e o amam. Sabe conquistar a todos, sem muitos esforços. E é leal, adjetivo importantíssimo nessa pessoa.
Houve tempos em que duvidaram, que riram, que lhe foi tirado o direito de ser acreditado. Mas não disse que ele sabe o que faz, mesmo que os caminhos não sejam, assim, tão ortodoxos? Pois hoje, quem riu por último riu melhor (já sem o aparelho!), os sonhos se concretizando, os objetivos sendo alcançados e da melhor forma, da SUA forma.
Lembra das mulheres acima citadas? Já estava esquecendo de mencionar: vai ver foi assim, sendo o único entre tantas, que aprendeu a tratá-las tão bem, a ser tão querido pelo sexo oposto, independente da idade, cor ou religião.
Reiterando o que já te disse uma vez, hermano, és meu espelho inverso,és quem leva um pouco de mim e deixa um pouco de si mesmo. "Amo tu!" Feliz aniversário!

E se...


Poucos são os arrependimentos que tenho em minha vida. De significativo, mesmo, acredito que nenhum. Quando falo significativo é algo do tipo que mudaria completamente minha vida, que faria diferença no que sou hoje.
Resta conviver com os arrependimentos diários, aqueles que corroem o dia-a-dia, a rotina, uma mudança no humor, na semana.
Hoje bateu uma melancolia em razão de um arrependimento, não muuuito significativo, mas que poderia mudar um pouquinho sim minha vida. Pelo menos não teria esta dúvida que me acompanha. E se tivesse saído mais cedo naquele dia? E se tivesse ido almoçar no local da prova? E se não houvesse ocorrido um acidente? (que, graças a Deus, não foi comigo!).
É que hoje vendo a lista de nomeados fiquei cá comigo pensando: não tive nem a oportunidade de saber se poderia ao menos ter tido uma chance. Seria melhor ter feito a prova e saber que não daria pé. O que me incomoda é nem ao menos ter uma pista de como poderia ter sido meu desempenho. Ah, e se...

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Pequenos contos - Domingo

Acordou cedo, considerando que era domingo. Nove da manhã. Céu nublado, prestes a chover. "Perfeito", pensou ela, vestindo o roupão e saindo devagar do quarto, para não acordá-lo. Passou pelo corredor e deu uma espiada no quarto da pequena. "Ainda dorme", verificou.
"Café passado, ovos mexidos, pão integral. Não, não. Pão branco, hoje é domingo! E domingo chuvoso, aconchegante". O cheiro do café já invadia a cozinha, os pães no tostador pulando quentinhos e os ovos mexidos no ponto.
"Agora sim, começo bem meu domingo", refletiu enquanto a cafeteira terminava seu serviço. A chuva veio torrencial, como para dizer bom dia. Sorriu e tomou o primeiro gole de café, pensando "mais que perfeito: chuva, domingo, café dos deuses e silêncio total". Breve momento em que consegue conectar-se consigo mesma. Nos domingos, diferente de todos os dias da semana, é quando sozinha, acompanhada apenas do sagrado café preto, consegue colocar a cabeça no lugar, sentir-se ela somente com ela, sintonizar-se com sua essência, energizar-se para a semana que começa na segunda-feira.
Pensou em tudo que precisava fazer, no que já havia feito e naquilo que com certeza não iria fazer. Com nova memória e energias revitalizadas, serviu a segunda xícara de café.
Barulho no corredor. Pézinhos que se arrastam, trazendo até a cozinha o sol que ilumina sua vida mesmo num domingo de chuva: "mami, tem meu nescau?". Os olhinhos ainda semi-fechados, as mãozinhas que carregam um velho pedaço de cobertor, companheiro inseparável do soninho.
Logo atrás, ainda sonolento e de pijamas, maior que a primeira, porém com os mesmos olhos e o mesmo desejo: "também quero um nescau, bom dia", seguido de um longo bocejo.
Sorriu novamente, satisfeita. Começava o domingo e o resto da semana.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

E se acabar?



Dia desses fiz um almoço especial para uns amigos. Após a sobremesa, minha amiga me pediu a receita do petit gâteau que, modéstia à parte, estava muito bom. Imediatamente, muito vaidosa e adorando o momento "minha receita especial", me vi dando a receita e intimamente tendo delírios de que daqui muitos anos meus filhos e meus netos iriam pedir pelo petit gâteau, esperariam ansiosos pelas festas e pelos almoços de domingo, minha receita seria passada de geração em geração...opa! Quando estava na metade de "mistura com a Hellman's de Leite" me dei conta de que minha receita pode ser uma falácia! Claro que a receita não é minha, tirei do site da tal De leite. Uma receita bem mais fácil do que as tradicionais e que sempre dá certo (!) mas...completamente dependente do ingrediente mirabolante que promete substituir vários outros em troca de uma receita fácil, prática, deliciosa mas que pode se evaporar!!Sim!Porque, o que vou fazer se algum dia não tiver mais a tal maionese de leite? Anos de sucesso e admiração gastronômica que podem nem vir a ocorrer! Sério, fiquei quase deprimida. Primeiro, porque me obrigo a ter que aprender a fazer uma receita de petit das tradicionais, bem mais trabalhosa e com o risco de não dar certo, como minha amiga mesmo já me advertiu. Segundo, porque eu já tinha gostado da idéia (ou delírio) de ser interpelada no futuro "mãe, faz o petit gâteau que só você sabe fazer?". Ok, pura vaidade. Mas quem nunca sofreu deste mal que atire a primeira pedra.
P.S: Para quem quiser a receita, é só acessar o site www.juntosefelizes.com.br

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Pós eleição


O que me tira do sério é a falta de comprometimento. O que me irrita é o descaso. O abuso por parte de quem deveria cumprir com suas obrigações e simplesmente as delega a quem não diz respeito. A preguiça. A falta de discernimento. A falta de perspectiva, de vontade de aprender. A ignorância da própria ignorância, sem a mínima noção do que sabe ou não fazer.O que me preocupa é a passividade com que encaramos tudo isso. Mas há algo a fazer? Se cada um fizesse a sua parte, o que listei não me incomodaria. Responsabilidade, comprometimento, dedicação. Regras básicas que definitivamente não são cumpridas.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Sábios conselhos


Filha prestes a viajar com maridão, mãe dando uma assistência moral enquanto a outra arruma as malas:
-Uma vez gostava mais de arrumar mala...só tinha a minha...
- Ah filhota, dava tudo hoje prá estar arrumando as malas de um marido...arruma aí direitinho, não deixa nada de fora. Acredita na mãe, melhor arrumar duas do que uma só.
Por via das dúvidas, foi a melhor mala que ela já arrumou.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Mãe é mãe


Minha mãe chegou de viagem hoje pela manhã e fui buscá-la na rodoviária. Já estava com saudades desde ontem, mas depois da noite agitada que tive, sonhando que estava brigando muito com ela, o reencontro foi um misto de alegria e alívio, sabe aquela sensação de "ufa, foi só um sonho"?
Pois bem, desde que comecei a postar novamente, tudo que me agrada, incomoda ou me força a ter reflexões, ainda que matinais , vira um post.
Essa história com minha mãe me fez pensar um monte sobre a responsabilidade e a aventura que é ser mãe. Ou melhor, a entrega total e absoluta que é ser mãe.
O que mais me surpreendeu quando comecei a falar para ela que tinha sonhado que estávamos brigando, foi quando ela completou minha história, digamos que "adivinhando" exatamente porque eu estava brigando com ela nos meu delírios noturnos.
Ela não só me conhece como me compreende, mesmo que isso signifique ter plena consciência do que me irrita profundamente em sua pessoa. Sim, porque, por mais amor que você possa nutrir por aquela que te deu a vida, invariavelmente, como em qualquer relacionamento, existem as diferenças.
Porém, mesmo assim, mãe que é mãe simplesmente convive com essas diferenças, aceita como algo que complementa a relação e sempre consegue ver o lado bom dos conflitos.
A minha é uma criatura que simplesmente não existe. Às vezes acho que ela é de outro mundo. Seu coração é tão grande, sua paciência tão sábia, sua generosidade tão desmedida, que chego a ficar envergonhada quando fico remoendo pequenas mediocridades e mesquinharias de minha parte, quando fico alimentando meus pequenos conflitos e minhas diferenças.
Isso tudo me faz pensar se algum dia chegarei aos pés de minha amada mãezinha. Se vou conseguir amar alguém de forma tão pura, tão descabida, tão incondicional. Acho que só sendo mãe para saber e compreender tamanho sentimento.
Enquanto isso, sigo admirando e amando essa mulher que tanto me ensina, sem nada, absolutamente nada, pedir em troca.
E quando me transformo no ser mais egoísta e desprezível, penso em minha mãe, no seu sorriso e no amor incondicional que dispõe, sem cobranças, sem esperar por retribuições ou recompensas, sendo suficiente para ela saber que estou bem.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

O velho e bom livro


Não tem muito tempo li a sinopse de um livro que conta a história de uma mulher solitária que busca refúgio para todos os seus dramas e suas frustações na leitura, no abrigo mais que perfeito de um bom livro. Além de ter ficado louca para ler o livro, comecei a pensar em todos os momentos em que de forma desesperadora somente um bom livro pode me salvar. A possibilidade de ficar no silêncio e na companhia de algumas páginas simplesmente me deixa em Nirvana (mesmo que não tenha idéia do que realmente seja este "estado", minha definição para ele é: ler um bom livro).
Livros, pelo que me lembro, me acompanham desde sempre. Ficar sozinha para mim nunca foi problema. Ao contrário, é um bom pretexto para tirar meus velhos amigos da estante (ou do criado mudo, da escrivaninha, da mesa de centro, de dentro da bolsa...eles estão em toda parte).
Esperar na recepção de um consultório, andar de ônibus ou simplesmente não ter nada para fazer num domingo chuvoso, nada disso me causa ansiedade ou desconforto. Tudo se resolve com um bom livro. Alguns podem até pensar que pode parecer um tanto quanto solitário, anti-social ou até mesmo antipático de minha parte.Mas acreditem, quando estou com um bom livro, nada disso me abala.
Aqueles que entendem a sintonia que pode existir entre uma pessoa e um livro sabem que é uma relação para a vida toda, em que se recebe muito mais do que meras palavras.
Quando identifico alguém assim, imediatamente essa pessoa figura na minha lista de favoritos e dos que empresto meus queridos (os livros) sem medo de serem maltratados.
O fato é que não consigo imaginar minha vida, minha casa ou qualquer gaveta sem um livro que possa ser lido (ou relido).
Voltando ao livro que gerou toda essa reflexão, tratata-se de "Ler, Viver e Amar em Los Angeles", de Jennifer Kaufman e Karen Mack , que ainda não li, mas mal posso esperar para tê-lo em minhas mãos, para mais uma jornada de imersão total em suas páginas, de silêncio total e absoluto e da certeza de que nunca se está sozinho se estiver com um bom livro.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Oi tudo bem?


Quantas vezes ao ser interpelado no início de uma conversa com um "oi tudo bem?" você realmente respondeu o que se passava? Espero que não muitas, ou pelo menos que tenha sido com as pessoas que realmente perguntaram porque queriam realmente saber a verdade. São poucas as criaturas que respondem com sinceridade, assim como invariavelmente são poucas as que realmente querem saber como você está. Acontece que a sintonia nem sempre é perfeita. Às vezes foi por mera educação e de repente você se vê na condição de analista ou ouvido de pinico, escutando todas as desgraças mais cabeludas que alguém pode ter pra contar. Ou, o que é mais incomum, você quer saber, está interessado, estava morrendo de vontade de conversar e o seu interlocutor, com uma polidez que beira a uma chatice retórica só solta um "bem e você?", passando a responsabilidade adiante. O que me irrita, e às vezes até preocupa, é a sintonia que acima mencionei. O problema não é falar ou não, ser somente educado ou verbalizar um monte de problemas. O que me incomoda é a falta de noção, às vezes até de sensibilidade, quando as pessoas interagem (ou tentam).É o colocar-se no lugar do outro, sentir o momento e saber até que ponto você deve ir (ou não).

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

O que te faz feliz?


Não faz muito me perguntaram se eu sou feliz. Prontamente respondi que sim. E continuo afirmando que sim. Mas por alguns momentos fiquei questionando e tentando elencar o que faz uma pessoa feliz. Partindo da minha própria concepção de felicidade, comecei minha listinha básica: família: a melhor que poderia ter; amor:aquele que escolhi e que amo de paixão;amigos do coração: tudo certinho, escolhidos a dedo e muito bem conservados, obrigada; carreira/profissão: sendo construída, da maneira que dá e no seu devido tempo, nada a reclamar. Essas foram as coisas que pensei de imediato. Mas aí, comecei a pensar: como faço pra tudo isso dar certo, ser uma engrenagem que funciona, mesmo que às vezes possa dar pane? Resposta: cabeça fria. Felicidade prá mim é ter tudo isso enquanto estou plenamente de bem comigo mesmo, numa boa, sem arrependimentos. Sabe aquela história de pensar positivo, tentar enchergar a solução quando você tem um problema? Pois é, tenho tentado ter uma posição positiva, super up, porque descobri que tudo o que nos faz feliz não é meramente fatos ou pessoas que nos rodeiam, mas sim como encaramos e interagimos com eles. A felicidade é algo que surge de dentro prá fora, um estado de espírito, prá repetir um antigo chavão. Mas quer maior chavão do que este: o que te faz feliz?

Prá recomeçar...


Confesso que uma vez já tentei ter um blog, deu tão certo que nem ao menos lembro como era o nome...mas, decidi começar tudo de novo, porém com o mesmo propósito: escrever para desopilar (ou ao menos tentar). De diferente, agora, é o modo como quero fazer isso. Do primeiro blog a única lembrança que tenho é que ficava tão preocupada com o que as pessoas iriam pensar do que eu escreveria que adivinha? Acabava não escrevendo! Sentava no computador e lá ficava, pensando no que postar...
Há alguns dias me deu uma vontade louca de escrever, sair juntando as palavras prá ver se minha cabeça aliviava um pouco... e aqui estou, de volta, pronta prá começar de novo, só que agora, sem cerimônias...