sexta-feira, 28 de novembro de 2008

De família

Descubro hoje que minha veia literária vem de sangue. Achava que o gosto por escrever se devia apenas a um bisavô que até livro de poesias teve publicado. Minha mãe hoje me mostrou uma "coisinha" que ela escreveu, como ela mesma disse. Está até agora se perguntando se foi ela a criadora destes versos, com uma modéstia misturada a um pudor desnecessários...
Já que o computador ainda é um terreno não muito explorado por ela e que um blog ainda está fora dos seus planos por enquanto, ela me permitiu publicar aqui sua palavras:

"Queria saber versos de Borges
Versos de Quintana
Saber discernir sobre coisas,
Solidão, faceirice
Queria prosear, contar causos
Cantar
Olhar o rio e me espichar
Fazer curvas, barulhinho
Andar aprumada,
Com rumo, serelepe
Ir pro mundo."(Maria Valderes Machado Bertholdo)

Minha mãe me surpreende sempre.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Para você

Quando você apareceu eu cá me encontrava em pedaços, tentando reconstruir as coisas dentro de mim. Foi no teu olhar de um azul profundo que eu encontrei a luz que me guiou para sair da escuridão em que havia me perdido.
Tantas semelhanças, tantas diferenças. O tempero de um amor avassalador, de um não sei que de magia, de realidade, de pés no chão. Bem fincados, bem objetivos e, ainda assim, sonhadores.
Por onde andamos, sempre de mãos dadas. Todas as estradas e encruzilhadas, sem haver separação. Meu apoio, meu norte, meu rumo certo. E para o norte, efetivamente voltei, para buscar o aconchego, para encurtar a distância e estar lado a lado.
De tudo que já tenho e ainda quero, é o que me basta para saber que sim, é você. Que sim, não somos perfeitos. Qua às vezes um descompasso, um desencanto, serve para lembrar que é sempre bom resgatar aquilo que de mais doce já nos alimentamos. Eu e você. Você e eu. Na essência, nas verdades.
Acordar hoje foi quase como estar em uma ressaca mal curada ou quando acordamos depois de ter pegado no sono chorando.
Ainda assim, consigo ver os olhos azuis que me arrastaram para a vida que hoje quero, que hoje tenho e que, de mais a mais, não poderia ser mais exata, mais sonhada, mais merecida. Tanto para mim quanto para você.
Amo-te. Com todos os momentos. Com todas as palavras. Com todas as certezas e incertezas. Com todos os abraços e aconchegos. Com todo estar só e os desencontros. Com todos os silêncios e as conversas. Amo-te.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

I don't know

Às vezes uma angústia que não passa, um não sei o que de sentir-se naufragando, um mar de dúvidas e pontos de interrogação. E isso é entre ela e ela mesma. Nada tem a ver com as criaturas que a cercam. Essas só trazem certezas, pontos de apoio e segurança. Escreve para ver se passa, se encontra ou descobre o que a faz sentir-se por vezes tão pequena, tão descabida em si mesma.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Vida

Dar um pouco de si
Juntar um pouco do outro
A vida que se renova
O presente que se faz constante
O futuro que se aproxima latente
E a natureza que começa a chamar
Antes disso, o egoísmo a ser vencido
A individualidade dando espaço à doação
Total e absoluta
Um caminho a ser percorrido
Só precisam do momento e
Do tempo
O resto se constrói.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Day by day

Descompasso
Desencontro
O que eu faço
O que eu conto
O silêncio necessário
O falatório descabido
Um minuto para pensar
Respirar
Desconsiderar
Vamos recomeçar?
Afinal, amar, viver, conviver
E por fim entender.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Momento love history


Em uma recente conversa com uma amiga, surgiu a idéia para este post. Ela me relatava a dor que passou durante sua recente separação, toda a angústia, a desilusão e a sensação de ter perdido o chão em razão de se ver só, sem o alguém que ela tanto amava. Isso tudo resultou em um sentimento de poteger-se por parte dela e a convicção que não irá nunca mais relacionar-se assim, depositando todas as fichas em uma pessoa e que relacionamentos no fim só dão errado e que não vale a pena buscar, acreditar, envolver-se.
Isso me fez pensar que já passei por isso, assim como 99,9999% das mulheres deste mundo...
O diferencial é que nunca perdi a esperança e sempre acreditei, sim, de pé junto, que um dia iria sim encontrar alguém que valesse a pena. Hoje me considero uma felizarda pois, como já expressei num post, tenho o amor que queria. Mas isso aconteceu não porque depositei todas as fichas nessa pessoa. Ao contrário, depositei todas as fichas em mim.
Acredito que você só consegue ter um relacionamento sadio, verdadeiro e que realmente te faça feliz se você estiver 100% por você, para você e pensando em você. Egoísmo? Não, pelo contrário. Só acredito que o amor acontece quando não há dependência, quando cada uma das partes sabe exatamente quem é e o que quer da vida, quando tem plena consciência do que pode oferecer ao parceiro, o que quer receber dele, deixando tudo isso bem claro.
Primeiro é necessário ter amor próprio e saber preservar-se, para então poder amar o outro e saber receber esse amor. Apaixonar-se e viver intensamente uma paixão é muito bom, a química produzida pelo corpo é algo indescritível e insubstituível. But, não é para sempre. O melhor disso tudo é quando se consegue chegar ao tão sonhado amor. Aquele sereno, descomplicado e que, na maioria das vezes, é duradouro. Sim , porque, posso ser romântica e tudo o mais, mas sei que em alguns casos, as coisas não dão tão certo, o tempo pode ser implacável e a vida uma montanha russa. Ainda assim,não deixo de acreditar. Em mim. Nele. Em nós.

Mas vamos parando por aqui, por que pelo que me consta, o Divã é em outro blog, ehehe.


"Sou dos que acreditam que a felicidade é possível, que o amor é possivel, que não existe só desencontro e traição, mas ternura, amizade, compaixão, ética e delicadeza. Penso que no curso de nossa existência precisamos aprender essa desacreditada coisa chamada "ser feliz". (Vejo sombrancelhas arqueando-se ironicamente diante dessa minha romântica afirmação). Cada um em seu caminho e com suas singularidades."
Lya Luft

Novos ares

Decidi mudar um pouco o layout do blog, estava achando um pouco poluído...como não me desfaço de jeito nenhum da minha ovelhinha e do meu porquinho, o jeito foi tirar um pouco a cor do blog...mas gostei mais assim!! De resto, tudo continua igual...sem cerimônias!

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Pequenos Contos - Solidão

Chegou em casa cansada, como no resto da semana. Jogou a bolsa sobre o sofá. Na poltrona ao lado o gato espreguiçava-se, levantando lentamente, ronronando. O felino pulou suavemente e enroscou-se por entre suas pernas, sua maneira de dizer bem vinda.
Lembrou que não havia passado no mercado e que provavelmente a geladeira estaria vazia, cena que a fez imediatamente pensar no barulho de grilos durante a madrugada.
Tirou os sapatos, sentindo o piso frio. Um banho quente era tudo o que precisava, uma toalha macia e um pijama confortável. Tentou ascender a luz do banheiro, mas não obteve resposta. Lembrou de umas velas aromáticas que tinha comprado em uma lojinha de produtos exotéricos. Não tinha pensado em usá-las assim, mas, vá lá, de outra forma não iria usar, pelo menos por enquanto. Ascendeu as velas e ligou o som. Enquanto enchia a banheira olhou-se no espelho. O efeito da luz das velas dava uma coloração diferente ao seu rosto. Ficou ali, se olhando, procurando não sabia bem o que. Sorriu, fez careta, perguntou como estava. Respondeu para si mesma que bem, com um sorriso amarelo. Nova expressão, agora de interrogação. Sim, você esta ficando louca, pensou.
O gato ronronava de novo aos seus pés. Abaixou-se e perguntou se ele achava que ela estava ficando louca. Ela mesma respondeu que sim, afinal estava no meio do banheiro, semi-nua, à luz de velas conversando com seu gato, logo após ter estabelecido uma franca conversa com o espelho.
Definitivamente preciso de alguém para conversar, ou de um bom vinho prá dormir melhor.
Foi até a cozinha, mas não encontrou nada. Lembrou que a última garrafa há muito se perdeu, numa noite em que não se sentia tão só.
Voltou ao banheiro, entrou na banheira quente e fechou os olhos. Começou a tocar uma música que há muito não escutava, mas que a fazia sentir vontade de chorar sempre, e sabia bem porque. Madeleine Peyroux entoava nos seus ouvidos, de forma doce, melancólica, a melodia que a embalou naqueles breves momentos em que uma felicidade doída se misturou com uma tristeza cortante.
"Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic 'til I'm gathered safely in

Lift me like an olive branch and be my homeward dove

Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

Let me see your beauty when the witnesses are gone
Let me feel you moving like they do in Babylon
Show me slowly what I only know the limits of

Dance me to the end of love
Dance me to the end of love..."

Haviam dançado no meio da sala, na noite em que ele partiu. Sabia que era a última vez que o veria, mas ainda assim nutria uma falsa esperança, um desejo quase ingênuo de que no último momento ele diria que ficaria, que ela era mais importante que qualquer cargo, em qualquer multinacional, em qualquer país, em qualquer tempo.
A música terminou, despertando-a para uma escuridão quase total, em que as velas definhavam e a água já esfriava.
Colocou o pijama e foi até a cozinha. Apesar do almoço ter sido o último contato com qualquer coisa que lembrasse uma refeição, não sentia fome. Fez um chá e, apenas por amor ao organismo, pegou algumas bolachas que sua vizinha, uma mãe-esposa-rainha-do- lar-impecável, havia feito a gentileza de dar-lhe, com aquele inconfundível sorriso em que um misto de pena e compaixão a deixavam furiosa, frisando que ela mesma tinha feito, uma receita da família, herança de sua mãe.
Aconchegou-se por entre os travesseiros e o edredon. O gato já se aninhava nos pés da cama. Chegou a pegar o livro que havia começado a ler ainda na outra semana, mas não conseguiu chegar até o fim do capítulo. O sono implacável era como um alento à sua solidão. Dormiu o sono dos justos, diria sua mãe. Mas a ausência de sonhos determinava que aquele não era o sono dos justos, mas de alguém que ao ter, algum dia, se dado ao luxo de sonhar acordada, via agora a vida passar em preto e branco, desejando que a música nunca tivesse terminado de tocar.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

O meu amor


Já quis ser alguém que correria o mundo. Houve tempos em que só conjugava a vida na primeira pessoa. Acreditava no eu e em mais ninguém. Um dia conheceu o amor. Mas aquele amor que vem depois da paixão e não vai embora. O amor que acalma, que traz alegrias e tristezas, para se ter certeza de que se está vivo. Amor que de tempos em tempos, reascende a chama da antiga paixão. É amor de amantes, de amigos, de companheiros. De risos, de estar junto sem nada fazer. Amor de viagens, de domingos de chuva e de sol. Amor de novela das oito, tanto no ser quanto no assistir. Amor que ajuda a crescer, a pensar e às vezes a ser um tanto insano. Amor que protege, que cuida com carinho. Amor daqueles sem tamanho, com infinitas possibilidades. Amor com bom humor, pois rir é o combustível da alma. Amor de olhos azuis, abraço envolvente e uma generosidade cativante. Amor que fez com que o nós ocupasse um espaço especial, sem que para isso o eu fosse esquecido. Amor compartilhado, retribuído. Amor sem condições, sem medos. Amor que enche o espírito e o coração, faz a mente ficar sadia e a pele rejuvenescer. Amor que por enquanto são dois, mas de tão grande, espera pelo momento em que serão três, ou quem sabe quatro? Amor que deve ser dividido, que quer ser mostrado, que merece ser escrito.
Ilustração Jana Magalhães

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Pequenos contos - A viagem

Terminou de conferir tudo que tinha arrumado na mala. Roupas pesadas, roupas leves, tênis, botas, sandálias, chinelos. Casacos estava levando apenas dois, sabia que no fim acabaria comprando outro por lá mesmo. Biquini o da terrinha. Comprar biquini no exterior não dá, não é a mesma coisa. E se for comprar um modelo braisileiro, será apenas prá pagar os olhos da cara. Mas nem sabia se iria usar. Estava levando por pura precaução.
Um ano fora. Será que vai passar rápido? O suficiente para voltar outra pessoa? Fotos, livros (para o caso de sentir falta do bom português), até o travesseiro de todos os dias. Pode ficar longe do pai, da mãe, dos irmãos, do cachorro que já estava ficando deprimido, pressentindo a partida. Mas do travesseiro, ah, esse não. As noites só são realmente bem dormidas se for com ele.
Sentou em cima da mala para fechá-la. Ter conseguido colocar tudo em uma única mala já foi uma proeza. Estava agora pensando na sucessão de fatos que a levaram a estar ali, sentada em sua mala, com uma passagem nas mãos.
Considerava o ponto inicial de tudo a tarde em que teve que ouvir aquelas palavras embargadas, o choro contido. Não a amava mais. Tinha um grande carinho, sim, mas era só. Pensou que teria sido melhor se ele dissesse que a odiava. Ficou ali, olhando para ele, tentando entender o que estava acontecendo. Não conseguiu dizer muito. Aceitou a situação, abraçaram-se e ele partiu.
Começava então a sucessão de novos fatos, novos olhares, novas fugas.
O término da faculdade trazia a sensação de não saber o que fazer, que rumo seguir. Iniciou um curso de fotografia, mais para se distrair, observar, ao invés de ser observada.
Ao final do curso, um dos professores entregou-lhe um folder contendo informações acerca de uma espécie de extensão, por assim dizer, do curso que acabara de concluir. Spéos Paris Photographic Insitute. Paris. Já havia pensado várias vezes em ir para Paris. Parecia um tanto quanto impossível que fosse para lá nessas condições. Sozinha, com uma câmera não mão e quase nada de francês. Somente o básico, absorvido em um rápido curso intensivo feito em umas férias de verão.
E agora estava ali, sentada em cima de uma mala, com o cartão de embarque em mãos. Embarque no portão 8, às 18h50. Destino: Aéroport Roissy-Charles-de-Gaulle, Paris.
Estava feito. A ansiedade já havia dado lugar a um início de melancolia. Uma espécie de saudade antecipada. O estranho é que o que sentia não era pela família que não veria por exatos 12 meses. Nem por ele, que há tempos já havia se acostumado com o vazio deixado.
Era uma saudade dela mesma. Uma sensação de que na volta, não seria mais o que era naquele exato momento.
Lembrou que somente decidiu se inscrever no curso depois de ler em algum lugar que
a melhor maneira de se reinventar é despir-se de tudo o que você já foi, afastar-se de tudo o que te formou, para depois regressar e encontrar um novo eu.
Reinventar-se. Era essa a palavra chave. Foi essa ânsia por uma metamorfose que a levou onde se encontrava agora.
Guardou o cartão de embarque na bolsa, junto com a carteira, a medalha de Nossa Senhora Aparecida dada pela mãe e um livro para ler na viagem. A máquina fotográfica, comprada recentemente, daquelas mais profissionais, carregava em mãos. Quase profissional, na verdade, afinal, não era prá tanto assim o seu dom com fotografia. Mas já era um começo. Ou melhor, um recomeço.
Suspirou, como se isso bastasse para estabelecer o fim de um ciclo e o início de outro.
Paris... Paris. Paris!!Repetiu em pensamentos.
Sua mãe bateu na porta do quarto. Estava na hora, tinham que sair, para não correr o risco de atrasar.
Lançou um último olhar em tudo ao seu redor. Tirou uma foto do quarto, prá lembrar como era antes. Tinha esse problema: gostava de guardar as memórias de forma bem viva, nutrindo o passado, não importando quão doloroso pudesse ter sido. O mural com recados e fotografias ainda intacto, com todas as memórias ainda ali, latentes, silenciosas.
"Mãe, me faz um favor? Antes de eu voltar, você encaixota e guarda todas essas fotos e o resto de tudo que está no mural?". A mãe respondeu que sim, só balançando a cabeça, com um ar de cumplicidade.
A mãe saiu arrastando a mala pesada, gritando para o pai que estavam descendo, que ele já deveria estar tirando o carro da garagem.
Fechou a porta, como se estivesse fechando uma etapa de sua vida, virando a página de uma história. Pensou novamente no "reinventar-se". Olhou a foto que acabara de tirar do quarto que deixava. Sorriu e a apagou da memória da máquina.

domingo, 2 de novembro de 2008

Copiar e colar

Direto do blog da minha cara Bípede, alguém que ama livros tanto quanto eu, e que descreveu essa paixão com exatas palavras, o post "livros doces livros". De diferente, é que eu gosto da feira do livro de Porto Alegre. Quando morei na capital me deliciava andando por todos os corredores...o engraçado é que nunca comprei nenhum nessas andanças, mas nunca tinha parado para pensar nisso...mas vamos ao post da minha amiga virtual:


"Começou a feira do livro. Eu não gosto da feira do livro. E também não tenho nada contra quem gosta. Não aprecio porque escolher um livro é muito mais do que comprá-lo. Porque eu preciso olhar a capa, tocar o papel, cheirar as folhas e ler um trechinho até me decidir, e na feira tem de tudo, menos tempo e espaço. E é preciso interesse, para não dizer envolvimento, na hora de escolher um livro, porque eles carregam mais que histórias. Livros são como um lar, doce lar. Não são objetos inanimados e solitários, ainda que assim eles passem a maior parte do tempo. Eles nos abrigam e acolhem, oferecem facetas, sentimentos e idéias a qualquer hora e em qualquer contexto. Ignoram nossas olheiras, nosso mau-humor, nossas mesquinharias. Simplesmente se entregam e sempre. Nada como ler o mesmo duas, três, quatro, cinco vezes.Livros, quando de verdade, nos transformam e mudam, e como, dentro das próprias palavras."