segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Sobre memórias

Lendo um livro do Marcelo Rubens Paiva (Ainda Estou Aqui) me deparei com um fato irremediável: algum dia, todos os dias, amanhã mesmo, iremos esquecer ou apagar uma memória. E isso irá acontecer sem que percebamos. Por mais que tentemos, é impossível guardar tudo o que vivemos de forma nítida e segura em nossa mente. A medida que envelhecemos, nossas memórias, sejam elas afetivas  ou não, em algum momento, seletivamente, boa parte delas, serão esquecidas ou guardadas em lugares cada vez mais distantes nesse nosso emaranhado cerebral. Tenho memórias que por vezes são acionadas por cheiros, sons, sabores. Outras, tento buscar de forma consciente, porém me escorrem entre conexões e sinapses falhas, entre incertezas de nomes, lugares, tempo e espaço. E quando estiver mais velha? Sinto medo desta pergunta nesse exato momento. Pela primeira vez sinto que tenho medo de envelhecer, porque isso me aproxima demais do esquecer. Esquecer o som das vozes dos que amo, do cheiro dos meus filhos quando bebês, da risada solta dos natais em família, do calor de um abraço apertado, de uma música que me lembra de alguém, de uma história contada e recontada, dos primeiros passos, das primeiras palavras, do primeiro beijo, do último encontro, do livro preferido, do lembrar-se sem esforço. E nesse exercício me dou conta de que tanta coisa já foi esquecida. Esquecer é uma dádiva e faz parte da vida, já li isso em algum lugar, não lembro onde, de que o esquecimento é o que nos mantém sãos. Talvez no futuro eu não lembre mais que um dia eu não quis esquecer nada.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Sobre ser independente

A Antônia desde pequena sempre foi bem independente e autônoma. Com a chegada do irmãozinho, deu aquela regredida básica que acomete todos os irmãos mais velhos da história da humanidade. Mãe liga a TV, mãe pega minhas canetinhas, mãe vem me limpar, mãe não vou sozinha porque tá escuro, mãe lava minha mão, mãe me dá comida na minha boca...e por aí vai. Se a cada "mãe!" eu ganhasse uma moeda, já estava rica. 
Sei que é uma fase, mas confesso que andava cansada e até bem irritada com as investidas dela em ter certeza que sim, eu continuo sendo sua mãe. Mas para uma menina de 6 anos, algumas coisas já estavam beirando ao absurdo. Por isso institui por aqui o que eu chamei de parâmetro de autonomia. Tudo o que não for difícil de ser aprendido por uma criança de 6 anos e não for perigoso, ela precisa fazer sozinha. Dessa forma, cada vez que ela solicita minha "ajuda" (porque às vezes nem é porque ela realmente não consegue fazer sozinha, mas sim pra ter certeza que estou ali para ela também) eu lembro a ela que não é difícil e nem perigoso. E tem funcionado! Dar autonomia, estimular a independência, deixar que tome suas próprias decisões (naquilo que ela tem capacidade para tanto) é a melhor forma de fortalecer a autoestima e a segurança de uma criança. 
Ser a irmã mais velha não é tarefa das mais fáceis, mas minha pequena tem, aos poucos, conseguido administrar o fato de que ela não é mais o centro absoluto das atenções. E tem me ensinado que o amor de uma mãe de dois nunca é dividido, mas sempre multiplicado!


quarta-feira, 18 de maio de 2016

Menina pode sim!

Hoje a Antônia comentou que haviam assistido na escola o filme procurando Nemo. "Eu gosto um pouco desse filme, mamãe." Até aí, tudo normal. Então veio o seguinte comentário: "Você sabia mamãe que o filme Carros é de meninos, que o Nemo é de meninos e que o Toy Storie é de meninos? Por isso as meninas só podem gostar um pouco deles". Meu alerta máximo de que alguém havia tido um papo machista com minha pequena de 5 anos piscou e gritou em volume máximo. "É mesmo filha, e quem falou isso pra você? ". A resposta foi imediata: "o fulaninho mãe, meu colega".
Eu respirei e pensei na melhor resposta para dar a ela, uma resposta que fizesse com que ela entendesse que essa história de que princesas são só para meninas e que personagens corajosos, valentes, rápidos e infinitamente mais divertidos e engraçados são só para os meninos estava completamente errada. "Olha filha, eu acho que todos esses filmes que você falou são para qualquer criança que goste de histórias divertidas, engraçadas e que falem de amizade. E alguém dizer que menina não pode gostar desse tipo de filme, não tem nada a ver. Menina também é VALENTE, CORAJOSA, RÁPIDA, ESPERTA E INTELIGENTE, você não acha?" Ela me olhou com um ar de satisfação, de quem havia sido liberada de um castigo ou de uma sentença de uma semana sem doce e soltou: "Claro mamãe! Eu adoro o Nemo, os Carros e o Toy Storie. E gosto das princesas também!" Senti que era exatamente isso que ela queria ouvir.
Mesmo falando todos os dias para a minha filha que ela pode fazer e ser o que ela quiser, que ela é uma menina forte, que ela é destemida, que ela é corajosa, há quem consiga tentar balançar essas estruturas e esses valores. Ainda que a pessoa em questão seja um coleguinha de 5 anos, um menino que ainda esta sendo guiado por parâmetros muito restritos e ultrapassados de o que é correto para meninas e o que é correto para meninos.
Minha pequena é VALENTE, CORAJOSA, FORTE, MEIGA, INTELIGENTE, RÁPIDA, GENTIL, uma LÍDER NATA . Gosta de rosa, roxo, princesas e bonecas, carrinhos e bicicleta, voa solta em um patinete e corre léguas à frente da maioria dos meninos na aula de educação física. Ela é o que ela quiser ser, porque menina pode sim! E será sempre!
Que as mães de meninas possam sempre dizer às suas princesas o quanto elas têm valor, o quanto são corajosas, espertas, valentes e fortes. E que as mães de meninos ensinem aos seus filhos que essas são qualidades admiráveis e esperadas em qualquer pessoa, inclusive nas mulheres. Nós mães  temos a missão de criarmos filhos que transformem o mundo em um lugar melhor, mais justo e igualitário.

terça-feira, 17 de maio de 2016

A culpa

A maternidade é linda, gratificante, uma dádiva. Mas sabe também ser cansativa, extenuante e às vezes cruel. 
Quando nasce um filho, nasce uma mãe. Nascem também  um amor incondicional e uma culpa inexorável, inseparável. Junte tudo isso e voialà: você tem uma mãe de carne e osso. E imperfeita, falível, porém não menos mãe. Mas explica isso pra uma mãe! Que ela pode errar, que as coisas podem não sair exatamente como parecia ser o certo.
Que o fato de sentir culpa é algo normal e que irá acompanhá-la pelo resto da vida agora que  criaturinhas tão frágeis, pequenas e com tanto a aprender dependem, e muito, dela, do seu senso crítico, dos seus cuidados, das suas escolhas, pelo menos nos primeiros anos da infância. 
Toda mãe deveria ter o direito de ser informada de que nada irá adiantar: nenhuma revista sobre maternidade, nenhum guia de como criar os filhos, nenhum conselho de vó, mãe, tia ou quem quer que tenha sido mãe irá preveni-la ou livrá-la da culpa. 
A mãe sempre sentirá culpa pelo que fez ou pelo que deixou de fazer. Pelas palavras ou pela falta delas. Pelas horas que não passou com os filhos  e também pelas que dedicou em demasia. Por todos os "nãos", os "sim", os "porque eu mandei". Culpa, culpa, culpa. Mas ela pode e deve ser administrada. Carregue a culpa daquilo que te compete, mas de forma leve (se é que isso é possível!?). Compartilhe com quem também a carrega. Nada melhor que uma mãe para reconhecer e acolher outra. Faça as escolhas que estiverem ao alcance da sua sensatez e do seu sexto sentido, o super poder de toda mãe. Sempre de braços dados com o amor, esse parceiro inseparável que nos dá a garantia de que sim, vale a pena todos os dias.

sábado, 9 de abril de 2016

Ela só está em casa


Já ouvi pérolas do tipo: agora só está cuidando dos filhos? Só em casa? Só?? Peraí, alguém me explica como isso se resume em só? 
A rotina de uma mãe que só fica em casa começa cedo, considerando que um dos filhos tem apenas seis meses e o relógio biológico dele anuncia todos os dias, pontualmente às seis da manhã, que o dia dele já começou e ele está com fome. Em seguida a outra criança da casa acorda, demandando atenção e cuidados, afinal uma menina de 5 anos ainda não se vira completamente sozinha. 
Entre uma mamada do pequeno, o tema da escola da mais velha, uma fralda pra trocar, o faz de conta das bonecas, manhê quero meu café, mais uma mamada (livre demanda é a regra por aqui), cadê a pecinha do lego, mais uma fralda, mãe me ajuda a colocar essa roupa nessa boneca, mas onde está minha mochila, você já escovou o dente? Mãe quero fazer cocô, lembrei da fralda de novo, fazer o bebê dormir, tava quase dormindo e a mais velha o acorda, começa tudo de novo, não entra aqui gritando, ufa dormiu, mãe não acho minha fantasia de bailarina, tô com fome de novo, não quero banana nem mamão, quero bolacha, mas não é saudável, negociamos melancia e uma bolachinha, toma mais água, xixi de novo, o pequeno acordou, agora a papinha e depois mais uma mamada, a mais velha em crise de ciúmes, já tá na hora do almoço, não quero essa salada, só quero arroz, meu prato como frio, coloca logo esse uniforme, já estamos atrasadas, mas não quero essa camiseta de manga comprida, mas tá esfriando vc vai ficar gripada, o marido querendo trocar uma ideia, tem que pagar a conta de luz e da água, quero mais água mãe, mas gelada, mas vai doer a garganta, e tem que ser no copo roxo, você viu se entrou aquela grana? Ainda não,  e minha água mãe? E meu brinquedo, hoje é dia do brinquedo, hoje é dia da vacina, hoje quero chegar mais cedo, vamos pra aula, falamos depois, desce do carro que tá atrasada, pega a mochila, não corre senão você cai, volta pra casa já tem mais uma fralda, mais uma mamada e o banho da tarde, dorme, mas não muito, alguma coisa incomodando, lembrei que preciso ir ao banheiro, meu cabelo precisa de tintura, marco na semana que vem, não tem mais amaciante e nem sabão, precisa ir no mercado, graças a Deus tem empregada, imagina quem não tem, lembra de passar no banco pagar as contas e também ver se entrou o dinheiro, vou aproveitar que ele dormiu e já volto, droga esqueci de ir no banheiro, chega o bebê já tá acordado, fralda, mamada, fralda, brincar pra estimular, já pensou criança sem estímulo, fica lesada, já tinha que estar sentando, o da fulana já tá quase engatinhando, mais uma papinha, mais uma mamada, fralda e mais um soninho, mais velha já na hora de buscar na escola, mãe tô com fome, vem pro banho, não vou, vou contar até três, deixa lavar o cabelo direito, sai do banho, não saio, vem que teu irmão já tá chorando, os dois agora estão chorando, marido chega, queria de novo conversar, conversamos depois da janta, deixa secar teu cabelo, não quero, vai ficar doente, mãe tô com fome de novo, já vou, deixa fazer teu irmão dormir, mas você só da bola pra ele, mas ele é bebê, tá quase dormindo, mãe tô com fome, acorda o bebe, dorme de novo, vamos jantar, mas não quero esse suco, então toma água, não toma tanto, come mais um pouco, escovou já o dente? Você não janta comigo? Depois que der mama de novo, mãe tô com sono, vem vamos dormir, coloca o pijama, olha como pulo alto na cama, desce daí, não grita vai acordar teu irmão, já acordou, pequeno com o pai, mais velha comigo, conta uma história? Mais uma? Mais uma? Mãe, acorda, falta uma história!Mamãe eu te amo, eu também, pegou no sono graças a Deus, vou enfim jantar, ou será que tomo banho primeiro? Desce aqui que quero conversar, marido carente, barriga com fome, precisando de um banho, pensando que amanhã tem consulta e dentista, dos pequenos, não dela, e lembra que precisa voltar no dentista e também na gineco, já tô com sono vc vem? Já vou, só preciso de um banho, xampu na cabeça, parece que ouvi um choro, foi só impressão, coloca o pijama, agora choro mesmo, mais uma mamada, mais uma fralda, meia noite, droga, não lembrei que a reunião da escola é na hora do dentista, lembrei que amanhã começa a natação, falta comprar maiô novo pra mais velha, fralda pro pequeno, carne pro almoço, acho que tá esfriando vou cobrir as crianças, pega no sono, não por muito tempo, mais uma mamada, mãe quero xixi, sonho agitado, acorda mais uma vez, mais uma mamada, qual foi o último seio mesmo? Volta pra cama, despertador já tocou, mas já? 6:30 da manhã e lá vamos nós outra vez. E a falta de pontuação e a sensação de que estou atropelando as palavras é proposital, os dias parecem assim mesmo, sem ponto final, um turbilhão de informações, sentimentos e emoções. Sei que sou privilegiada em poder estar perto, bem pertinho dos meus filhos, fiz a opção de não terceirizar os cuidados e a criação e educação deles, coisa que nem toda mãe pode fazer, já que trabalhar fora é a regra e não a exceção, e o período de licença maternidade em nosso país está longe, bem longe de ser o ideal. A rotina não é fácil, seja para as mamães em tempo integral como para as que trabalham fora, porque para as que trabalham fora a rotina é ainda mais pesada, pois fazem jornada dupla, tem que lidar com o cansaço e problemas do trabalho e ainda encarar a rotina doméstica. Criar e educar filhos é um ato de entrega, de dedicação e muito trabalho diário. Envolve paciência, amor, mais paciência, um pouquinho de bom humor, uma pitada de lucidez, algumas colheres de boas risadas e alguns litros de lágrimas, muitos quilos de culpa, várias porções de responsabilidade e uma doação interminável e incondicional. E ajuda muito se o resto do mundo não vier com esse papinho brabo de ela “só”cuida dos filhos e “só” fica em casa!

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Comédias da vida "compartilhada"


Entrou no elevador no 15º andar. Desceu sozinha até o 13º, quando então entraram duas criaturas em um animado e acalorado bate papo sobre a vida alheia:
-Estou te dizendo guria, duvido que ela foi para Paris!
-Mas por que você acha isso?
-Ué, não vi nadica de nada, nem no Insta, nem no Face, nada!
-É, mas tem uma prima minha, que conhece a melhor amiga dela, que jura de pé junto que viu foto em um álbum, desses de foto impressa sabe, uma vez que foi na casa dela...
- Ah, e você acreditou? Pois eu acho que não foi! E digo mais, acho que a vidinha dela deve ser uma chatice! Nunca publica nada, só compartilha uns textos meio cabeças, umas frases soltas aqui e acolá, umas notícias que todo mundo vê. Me diz se isso existe? Quem é que vai pra Paris e não compartilha, não solta nenhuma #parisjet'aime? Fala sério!
- Sabe que você pode estar certa? Só pode, é a única explicação. Ela não deve é fazer nada de interessante, por isso que não Insta nada, não compartilha nada...
- Pois é, e nunca vi ela dizer que está "se sentindo feliz". Vai ver não tá mesmo né? Coitada, deve ser super sozinha!

E as duas desvairadas saem no 5º andar, cada uma já com o celular em mãos, deslizando os dedos avidamente por novidades da vida alheia, por traços da vida compartilhada de alguém que tenha ido a puta que pariu, mas pelo menos provou que foi.  A porta se abriu no térreo e a massa de gente que pelo elevador esperava levou pelo menos três segundos para dar-se conta de que ele já havia chegado, pois todos, absolutamente todos, estavam com os olhos naquele que, aparentemente, não mente nunca e revela sempre. Era uma vez a comédia da vida privada. Hoje está mais pra comédia da vida compartilhada. #EQueAtireAprimeiraPedraQuem nunca.  

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Sobre Marias que existem por aí

Essa é a história da Maria, mulher igual a muitas que andam por aí. Uns dizem que Maria não é feliz.
Mas Maria é feliz, e o melhor, já sabia que seria. O problema é que muitos, nessa era de todo mundo saber da vida (superficial) de todo mundo, às vezes confundem discrição com ausência de alegria.

Onde todos compartilham as supostas vidas perfeitas, Maria segue sem neuras, vivendo sua vida com quem interessa, e não com e para a maioria. Vez que outra Maria se depara com alguma ironia, algumas almas frias que insistem em minar sua sintonia, sua aura de quem vive sem se importar com o que não lhe traz simpatia. Intimidade é algo que traz e mostra só a quem interessa e merece dela participar, e não se importa se os outros tentam assim adivinhar o que se passa dentro dela. Os que a conhecem de forma real, sabem que como ela e com ela, vida melhor, não tem igual. E a recíproca é verdadeira, tais quais suas amizades e realidades bem verdadeiras. Existem muitas Marias, muitos Joãos assim. E pra cada Maria e cada João que são felizes e sabem que sim, existem muitos fulanos que gostariam de ser um tiquinho feliz assim, mas às vezes não conseguem, ou pior, não merecem. Mas isso pra Maria não faz diferença, não fica pensando e nem ocupando seu tempo com coisas assim. O que ela mais gosta mesmo é de seguir sorrindo pra quem importa, e fim.