terça-feira, 2 de abril de 2013

De volta

Com os olhos ainda inchados, resolveu encarar todos os medos. Medo de errar, medo de não ser notada, medo de ser fraca, medo de ser forte demais, medo de ter medo. Medo de ser fútil e de ser muito séria também. Medo de ser tachada de chata (mais uma vez, pois foram incontáveis as vezes na adolescência), medo de ser gorda e de fugir da realidade, medo de ser uma mulherzinha e de ser uma super mulher, com capa e espada de super mãe-esposa-profissional-amante-amiga-megera-rainha má-princesa cinderela. Medo dela mesma, da vida, da rotina e da morte, mesmo que por vezes desejada, no mais insano pensamento, por pura vaidade do tipo aí então iriam sentir minha falta. E de tanto sentir medo, afogou-se em lágrimas e surtos, em realidades distorcidas, fantasias meramente reais e palpáveis. Em contradições com ela e ela mesma, dela para si e de si para o vazio. Em palavras não ditas, em sentimentos abafados, em gritos contidos, em fúria engolida e mal digerida. Em cair em si mesma e no nada. E voltar à superfície e tentar respirar. E só conseguir com os dedos, rápidos, sem freios, com a tela já esquecida a brilhar no meio da noite, e as palavras rápidas e gentis, e que a entendem e que a libertam. E por fim torna a respirar, torna a ver tudo mais claro. Estava sempre ali, tudo, absolutamente tudo, como num surto mal contido. A escrita, as palavras, os dedos, os sentimentos, ela por ela mesma. De volta. Começa a sentir-se viva.