segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Pequenos contos - A viagem

Terminou de conferir tudo que tinha arrumado na mala. Roupas pesadas, roupas leves, tênis, botas, sandálias, chinelos. Casacos estava levando apenas dois, sabia que no fim acabaria comprando outro por lá mesmo. Biquini o da terrinha. Comprar biquini no exterior não dá, não é a mesma coisa. E se for comprar um modelo braisileiro, será apenas prá pagar os olhos da cara. Mas nem sabia se iria usar. Estava levando por pura precaução.
Um ano fora. Será que vai passar rápido? O suficiente para voltar outra pessoa? Fotos, livros (para o caso de sentir falta do bom português), até o travesseiro de todos os dias. Pode ficar longe do pai, da mãe, dos irmãos, do cachorro que já estava ficando deprimido, pressentindo a partida. Mas do travesseiro, ah, esse não. As noites só são realmente bem dormidas se for com ele.
Sentou em cima da mala para fechá-la. Ter conseguido colocar tudo em uma única mala já foi uma proeza. Estava agora pensando na sucessão de fatos que a levaram a estar ali, sentada em sua mala, com uma passagem nas mãos.
Considerava o ponto inicial de tudo a tarde em que teve que ouvir aquelas palavras embargadas, o choro contido. Não a amava mais. Tinha um grande carinho, sim, mas era só. Pensou que teria sido melhor se ele dissesse que a odiava. Ficou ali, olhando para ele, tentando entender o que estava acontecendo. Não conseguiu dizer muito. Aceitou a situação, abraçaram-se e ele partiu.
Começava então a sucessão de novos fatos, novos olhares, novas fugas.
O término da faculdade trazia a sensação de não saber o que fazer, que rumo seguir. Iniciou um curso de fotografia, mais para se distrair, observar, ao invés de ser observada.
Ao final do curso, um dos professores entregou-lhe um folder contendo informações acerca de uma espécie de extensão, por assim dizer, do curso que acabara de concluir. Spéos Paris Photographic Insitute. Paris. Já havia pensado várias vezes em ir para Paris. Parecia um tanto quanto impossível que fosse para lá nessas condições. Sozinha, com uma câmera não mão e quase nada de francês. Somente o básico, absorvido em um rápido curso intensivo feito em umas férias de verão.
E agora estava ali, sentada em cima de uma mala, com o cartão de embarque em mãos. Embarque no portão 8, às 18h50. Destino: Aéroport Roissy-Charles-de-Gaulle, Paris.
Estava feito. A ansiedade já havia dado lugar a um início de melancolia. Uma espécie de saudade antecipada. O estranho é que o que sentia não era pela família que não veria por exatos 12 meses. Nem por ele, que há tempos já havia se acostumado com o vazio deixado.
Era uma saudade dela mesma. Uma sensação de que na volta, não seria mais o que era naquele exato momento.
Lembrou que somente decidiu se inscrever no curso depois de ler em algum lugar que
a melhor maneira de se reinventar é despir-se de tudo o que você já foi, afastar-se de tudo o que te formou, para depois regressar e encontrar um novo eu.
Reinventar-se. Era essa a palavra chave. Foi essa ânsia por uma metamorfose que a levou onde se encontrava agora.
Guardou o cartão de embarque na bolsa, junto com a carteira, a medalha de Nossa Senhora Aparecida dada pela mãe e um livro para ler na viagem. A máquina fotográfica, comprada recentemente, daquelas mais profissionais, carregava em mãos. Quase profissional, na verdade, afinal, não era prá tanto assim o seu dom com fotografia. Mas já era um começo. Ou melhor, um recomeço.
Suspirou, como se isso bastasse para estabelecer o fim de um ciclo e o início de outro.
Paris... Paris. Paris!!Repetiu em pensamentos.
Sua mãe bateu na porta do quarto. Estava na hora, tinham que sair, para não correr o risco de atrasar.
Lançou um último olhar em tudo ao seu redor. Tirou uma foto do quarto, prá lembrar como era antes. Tinha esse problema: gostava de guardar as memórias de forma bem viva, nutrindo o passado, não importando quão doloroso pudesse ter sido. O mural com recados e fotografias ainda intacto, com todas as memórias ainda ali, latentes, silenciosas.
"Mãe, me faz um favor? Antes de eu voltar, você encaixota e guarda todas essas fotos e o resto de tudo que está no mural?". A mãe respondeu que sim, só balançando a cabeça, com um ar de cumplicidade.
A mãe saiu arrastando a mala pesada, gritando para o pai que estavam descendo, que ele já deveria estar tirando o carro da garagem.
Fechou a porta, como se estivesse fechando uma etapa de sua vida, virando a página de uma história. Pensou novamente no "reinventar-se". Olhou a foto que acabara de tirar do quarto que deixava. Sorriu e a apagou da memória da máquina.

2 comentários:

bípede falante disse...

Que delicado e que final inesperado... sei o que sua personagem sente... a gente se reinventa o tempo todo, mas tem épocas em que o processo é mais intenso e crucial.

Silvestre Gavinha disse...

Gostei.
Engraçado. Meu filho foi para a França mais ou menos nessa situação.
Quase mando o conto para ele.
Mas é como se eu tivesse vivido essa situação. Ele não vai ler com os mesmos olhos. Acho que já se reinventou. Quase 3 anos lá.
Eu estou precisando me reinventar.
No momento, ando nas insanidades... Achei você no blog da bípede.
Vou voltar.
Abraço
Marie