Na cafeteria quase vazia, escolheu uma mesa de canto, próxima à porta de saída, estratégia adquirida depois de tantos encontros que teve vontade de correr após os primeiros quinze minutos. Mesmo prometendo apagar os aplicativos de relacionamento há mais de seis meses, continuava na busca insalubre em matches duvidosos. Tamborilou incessantemente os dedos nus na mesa, tomou o último gole do segundo expresso curto, as pernas cruzadas e o pé em ritmo acelerado. Olhou para o celular: trinta minutos atrasado. Qual a regra para abandonar um encontro no qual você está levando um bolo? Começou a digitar uma mensagem, mas apagou. Foda-se, meia hora já é tempo suficiente. Fez sinal para a atendente trazer a conta, enquanto procurava a carteira na bolsa.
A nota chegou, acompanhada de um mini cupcake de chocolate. Antes que desse tempo de dizer que não havia pedido nada, a garçonete apontou com o polegar em direção ao cliente que aguardava por um café: “foi ele”. Encostado no balcão com as pernas entrelaçadas, continuava com o mesmo sorriso doce, um canto da boca subindo mais que o outro, formando uma covinha pequena e redondinha só do lado esquerdo, a barba por fazer que quando roçava no rosto a fazia sentir cócegas e os óculos de grau que sempre embaçavam quando se beijavam. Ele acenou e disse oi, levantando o copo de café pra viagem.
Foi o que bastou para ela sorrir, seus pelos se arrepiarem de forma sistemática nas pernas e depois nos braços, o coração acelerando, a garganta secando. Levantou a mão para acenar, derrubando a plaquinha de identificação da mesa e fazendo a garçonete revirar os olhos e dar as costas. Ele riu balançando a cabeça e veio na direção da mesa. Ela levantou de forma desajeitada, tão desajeitada quanto o abraço que veio a seguir, impregnado com o perfume cítrico que invadia seus sentidos e fazia a memória rodopiar, as mãos e os lábios tremiam. “E aí, guria? Como você está?” A intenção era dizer que estava bem, tudo bem, tranquilo. Mas o que saiu foi um “com uma puta saudade de você” assim no seco, sem filtro, sem aviso. O sorriso desapareceu. Olhou fundo nos olhos castanhos esverdeados que já estavam cristalinos e com lágrimas em fuga rápida, enxugadas imediatamente pelos dedos longos dela, deixando um rastro de rímel nas bochechas rosadas. Ele sussurrou “mais uma vez, me perdoa, por favor” enquanto ela fechava os olhos e sentia ele afundar o nariz em seu pescoço, pra depois beijar de forma demorada sua testa. Ela não tinha coragem de olhar e encarar o inevitável: ele dando as costas e rumando em direção à porta. A mesma cena que há tempos martelava na cabeça e que se repetia em devaneios e ruminações de “e se?”.
Quando enfim conseguiu abrir os olhos pode ver ele entrar no carro, entregar o café para quem o esperava. A cara blasé dela, a atenção fixa na tela do celular, sem nem ao menos olhar nos olhos dele. “Essa vaca não sabe a sorte que tem”, foi o que pensou. Ele então virou-se para o banco de trás, o sorriso agora largo e iluminado, de uma forma que ela nunca tinha visto, as mãozinhas e os pézinhos em festa. O barulho de uma notificação de mensagem a tirou do transe, “desculpa gata, vai ter que ficar pra uma próxima, falamos”. Um “vai sonhando” ecoou alto e raivoso. Bloqueou o contato e saiu para a noite que já caía, assim como a garoa fina que se misturava com as lágrimas que ela já não mais se importava em conter. Existem amores indisputáveis.
Nenhum comentário:
Postar um comentário