A notificação de mensagem chegou e abri imediatamente o aplicativo, dedos tremendo pelas notícias do exame de ultrassom. Mas a imagem que pipocou na tela do celular atingiu minha retina de forma visceral, refletindo num calafrio que chegou ao meu estômago e causou náuseas agudas: sangue, muito sangue, algo branco que não conseguia distinguir, um lençol ou uma toalha, agora tingido de um vermelho vivo. Acabara de pousar em São Paulo justamente para dar a notícia pessoalmente a minha mãe: seria pai. Seria, seria, seria. Não mais. O choro silencioso veio na mesma intensidade de quando escutei o barulho do coraçãozinho no primeiro exame. O vazio que tomou conta do peito paradoxalmente pesava como um tijolo quente, um misto de raiva e melancolia misturados a um alívio estranho. Tinha levado um mês para me acostumar com a ideia, consumi noites sem dormir pensando nisso. Por fim, a alegria tornou-se maior que o medo e a vergonha. A sensação de alívio eu sabia bem porque: não precisaria contar que seria pai. Que somente eu seria pai. E não nós, como tanto desejado em todos os anos de casados. Tirei a aliança do bolso e a coloquei de volta no dedo. Chamei um Uber e digitei o endereço de casa. Enquanto o motorista tentava iniciar uma conversa sobre o tempo, respondi à mensagem com um “talvez Deus sabe o que faz”. A resposta veio curta e seca: “babaca covarde”. Apaguei o histórico de mensagens e o contato dela. Sou mesmo um babaca covarde.
Nenhum comentário:
Postar um comentário