sexta-feira, 24 de julho de 2026

Terça casa

Desabam na cama, lado a lado, como todas as terças nos últimos dois meses. Saciados, suados e gozados. Ele segue para o banheiro. Ela ainda termina de degustar o sabor dele na boca, o cheiro de sexo que vem da pele e a mistura adocicada dos perfumes dos dois. Já sabe a sequência de cor. Presta atenção aos barulhos e rotinas e os memoriza como pequenos tesouros contidos em pouco mais de três horas semanais de contentamento. Os cinco minutos no chuveiro, em que ele assovia seu samba favorito, o retorno com um sorriso de orelha a orelha e a pergunta de sempre:  “gozou gostoso, bonita?”. Os beijos na bunda e nas costas, o andar despretensioso em direção a sacada, o jeito carinhoso dele puxar os banquinhos para sentar enquanto acende o cigarro e traga de forma lenta, como quem procura uma forma de prolongar o prazer. Solta a fumaça e sorri, um sorriso branco que se emoldura na pele negra. A encara por alguns minutos como quem tenta ler pensamentos, imaginando porque fica tão quieta depois que eles trepam feito coelhos. E ela ali, as pernas erguidas e os pés brancos com unhas vermelhas. Mesmo tendo gozado na cama, goza ainda mais no silêncio que os dois fazem sentados lado a lado, numa intimidade que vai para além dos lençóis e dos gemidos. Apaga o cigarro e a puxa pro colo, uma dança que já conhece tão bem. Se encaixam novamente, o beijo com gosto de tabaco, a alegria morna que ela há tanto tempo não sentia. O abraço demorado seguido da constatação: moraria para sempre nessas terças-feiras.


Nenhum comentário:

Terça casa

Desabam na cama, lado a lado, como todas as terças nos últimos dois meses. Saciados, suados e gozados. Ele segue para o banheiro. Ela ainda ...