sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Comédias da vida "compartilhada"


Entrou no elevador no 15º andar. Desceu sozinha até o 13º, quando então entraram duas criaturas em um animado e acalorado bate papo sobre a vida alheia:
-Estou te dizendo guria, duvido que ela foi para Paris!
-Mas por que você acha isso?
-Ué, não vi nadica de nada, nem no Insta, nem no Face, nada!
-É, mas tem uma prima minha, que conhece a melhor amiga dela, que jura de pé junto que viu foto em um álbum, desses de foto impressa sabe, uma vez que foi na casa dela...
- Ah, e você acreditou? Pois eu acho que não foi! E digo mais, acho que a vidinha dela deve ser uma chatice! Nunca publica nada, só compartilha uns textos meio cabeças, umas frases soltas aqui e acolá, umas notícias que todo mundo vê. Me diz se isso existe? Quem é que vai pra Paris e não compartilha, não solta nenhuma #parisjet'aime? Fala sério!
- Sabe que você pode estar certa? Só pode, é a única explicação. Ela não deve é fazer nada de interessante, por isso que não Insta nada, não compartilha nada...
- Pois é, e nunca vi ela dizer que está "se sentindo feliz". Vai ver não tá mesmo né? Coitada, deve ser super sozinha!

E as duas desvairadas saem no 5º andar, cada uma já com o celular em mãos, deslizando os dedos avidamente por novidades da vida alheia, por traços da vida compartilhada de alguém que tenha ido a puta que pariu, mas pelo menos provou que foi.  A porta se abriu no térreo e a massa de gente que pelo elevador esperava levou pelo menos três segundos para dar-se conta de que ele já havia chegado, pois todos, absolutamente todos, estavam com os olhos naquele que, aparentemente, não mente nunca e revela sempre. Era uma vez a comédia da vida privada. Hoje está mais pra comédia da vida compartilhada. #EQueAtireAprimeiraPedraQuem nunca.  

Um comentário:

Eric Jhon disse...

Uma pessoa é julgada pelo que posta ou o que deixa de postar. Muitas vezes deixamos de observar o que está acontecendo a nossa volta para baixarmos a nossa cabeça e deslizarmos "os dedos avidamente por novidades da vida alheia", que pouco importa para nós. Estamos nos tornando fúteis.