quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Pequenos contos - A espera

Já fazia uma hora que estava a esperar nas cadeiras duras do aeroporto. O livro que trouxera já pela metade, findara na última hora derradeira. O bater de pernas sinalizava uma angústia e um tédio sem fim. O quadro de voos sinalizava um atraso de pelo menos duas horas.
O vai e vem de pessoas passou a ser seu passatempo. Iniciou um jogo de narrativas para cada transeunte que por ali passava.
Avistou uma senhora baixinha e muito magra, com uma calça em tom caqui e um lenço estampado no pescoço. Cara de quem viaja sozinha, solteira, quem sabe? Ou com filhos já crescidos e que não fazem a mínima questão de acompanhá-la em suas viagens internacionais mundo afora. Engraçado que não imaginou a criatura com um par, um namorado, amante, o que fosse. A esquisitice da pequena senhora parecia não comportar um amor desses românticos. Espanto. Quem justamente se aproximou foi um senhor, da mesma forma baixinho e magro, com uma mesma calça caqui, um chapéu panamá e uma máquina fotográfica pendurada no pescoço. Diz para si mesma que cada qual tem o seu igual, e fica um tanto constrangida por ter de forma tão leviana julgado a pobre mulher pela aparência. Mas sua imaginação e seus olhos nesse momento não estavam ali para imprimir valores corretos a quem quer que fosse. O tédio a levava a divagar, pensar nas mais absurdas conjecturas.
O senhor logo a frente, com olhar tristonho e bengala a tiracolo, parecia não se importar com o vai e vem ao seu redor. Estava ali, mas era como se não estivesse. Estaria aguardando um voo de partida? Ou estaria já cansado de uma longa viagem, somente a espera de uma conexão? A pequena bagagem de mão, uma água e um livro, o qual ela lutava para enxergar a capa e o título, eram os únicos companheiros da figura que parecia já ter criado raízes na cadeira desconfortável.
E o tempo que não passava. E a maldita mania de sair de casa sem lembrar de trazer dois livros, ou pelo menos um que esteja iniciando, e não terminando. A livraria estava ali, logo a frente, à sua disposição. Mas a cota já havia se esgotado, e a pilha de queridos ainda não lidos já se acumulava em sua escrivaninha. Já tinha exemplares para os próximos seis meses, e um rombo no cartão de crédito que merecia sua atenção.
Passada mais uma hora, e o quadro de avisos marcando um atraso agora de três. Mais duas horas pelo menos de espera. E para o que exatamente? A voz dele ao telefone não parecia das mais amistosas. Um "precisamos conversar" um tanto quanto assustador e previsível. Dois anos de idas e vindas, em cidades, estados diferentes, projetos diferentes, só mesmo a vontade em estar junto é que era compartilhada.
O que será que ele queria com esse "precisamos conversar"? E assim, no meio da semana, sem feriado e nem folga programada?
Passou para as unhas, que já se faziam esconder, de tanto serem comidas em momentos de aflição. Pensou em comer alguma coisa, tomar um café talvez. Levantou-se para ir até a cafeteria, esquecendo que no colo estavam o celular e o livro que acabara de ler. O aparelho partiu-se em dois e o livro foi parar debaixo da cadeira do senhor de bengala. "Merda!", pensou alto, arrependendo-se de imediato, diante dos risinhos de uma garota com não mais do que quinze anos, rímel carregado e unhas curtinhas azuis.
Era o terceiro celular em menos de seis meses. Parou diante do senhor tristonho, pediu licença e recuperou o livro. Olhou mais uma vez para o quadro de voos. Faltava menos de meia hora para ele chegar. Uma aflição tomou conta de seus pensamentos e já ensaiava um discurso auto-suficiente do tipo tudo-bem-se-você-não-quer-mais-eu-vou-ficar-legal-não-se-preocupe-comigo. Mesmo sabendo que se isso acontecesse, ela iria chorar rios de lágrimas, comer montanhas de chocolate e escutar Nora Jones meses a fio.
E eis que o avião pousou, as pessoas desceram, uma a uma, crianças, velhos, mulheres, homens, famílias inteiras e até um grupo de viagem. Porque raios ele por último? Ele é sempre o primeiro, sempre só com uma bagagem de mão?! Piscou duas vezes quando avistou a figura empurrando o carrinho das malas, com três volumes e uma gaiola para transporte de animais. Mas pera ai: ele nunca trouxe o Boris. O Boris nunca saiu do apartamento. Gatos não gostam de viajar. O Boris não gosta de mim, pelo menos é o que parece toda vez que eu chego no apartamento dele. E o medo deu lugar a borboletas no estômago. Lembrou que não trocava os lençóis há uma semana, que a geladeira estava praticamente vazia e que seu prédio não aceitava animais. Os olhares se cruzaram e eles se perderam nesse olhar por alguns minutos, cada um com suas certezas e inseguranças. Ele sorriu. Ela sorriu. Boris miou, um miado sentido, de quem foi vencido. Teriam que procurar um lugar em que bichos fossem bem vindos. 



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