quarta-feira, 18 de maio de 2016

Menina pode sim!

Hoje a Antônia comentou que haviam assistido na escola o filme procurando Nemo. "Eu gosto um pouco desse filme, mamãe." Até aí, tudo normal. Então veio o seguinte comentário: "Você sabia mamãe que o filme Carros é de meninos, que o Nemo é de meninos e que o Toy Storie é de meninos? Por isso as meninas só podem gostar um pouco deles". Meu alerta máximo de que alguém havia tido um papo machista com minha pequena de 5 anos piscou e gritou em volume máximo. "É mesmo filha, e quem falou isso pra você? ". A resposta foi imediata: "o fulaninho mãe, meu colega".
Eu respirei e pensei na melhor resposta para dar a ela, uma resposta que fizesse com que ela entendesse que essa história de que princesas são só para meninas e que personagens corajosos, valentes, rápidos e infinitamente mais divertidos e engraçados são só para os meninos estava completamente errada. "Olha filha, eu acho que todos esses filmes que você falou são para qualquer criança que goste de histórias divertidas, engraçadas e que falem de amizade. E alguém dizer que menina não pode gostar desse tipo de filme, não tem nada a ver. Menina também é VALENTE, CORAJOSA, RÁPIDA, ESPERTA E INTELIGENTE, você não acha?" Ela me olhou com um ar de satisfação, de quem havia sido liberada de um castigo ou de uma sentença de uma semana sem doce e soltou: "Claro mamãe! Eu adoro o Nemo, os Carros e o Toy Storie. E gosto das princesas também!" Senti que era exatamente isso que ela queria ouvir.
Mesmo falando todos os dias para a minha filha que ela pode fazer e ser o que ela quiser, que ela é uma menina forte, que ela é destemida, que ela é corajosa, há quem consiga tentar balançar essas estruturas e esses valores. Ainda que a pessoa em questão seja um coleguinha de 5 anos, um menino que ainda esta sendo guiado por parâmetros muito restritos e ultrapassados de o que é correto para meninas e o que é correto para meninos.
Minha pequena é VALENTE, CORAJOSA, FORTE, MEIGA, INTELIGENTE, RÁPIDA, GENTIL, uma LÍDER NATA . Gosta de rosa, roxo, princesas e bonecas, carrinhos e bicicleta, voa solta em um patinete e corre léguas à frente da maioria dos meninos na aula de educação física. Ela é o que ela quiser ser, porque menina pode sim! E será sempre!
Que as mães de meninas possam sempre dizer às suas princesas o quanto elas têm valor, o quanto são corajosas, espertas, valentes e fortes. E que as mães de meninos ensinem aos seus filhos que essas são qualidades admiráveis e esperadas em qualquer pessoa, inclusive nas mulheres. Nós mães  temos a missão de criarmos filhos que transformem o mundo em um lugar melhor, mais justo e igualitário.

terça-feira, 17 de maio de 2016

A culpa

A maternidade é linda, gratificante, uma dádiva. Mas sabe também ser cansativa, extenuante e às vezes cruel. 
Quando nasce um filho, nasce uma mãe. Nascem também  um amor incondicional e uma culpa inexorável, inseparável. Junte tudo isso e voialà: você tem uma mãe de carne e osso. E imperfeita, falível, porém não menos mãe. Mas explica isso pra uma mãe! Que ela pode errar, que as coisas podem não sair exatamente como parecia ser o certo.
Que o fato de sentir culpa é algo normal e que irá acompanhá-la pelo resto da vida agora que  criaturinhas tão frágeis, pequenas e com tanto a aprender dependem, e muito, dela, do seu senso crítico, dos seus cuidados, das suas escolhas, pelo menos nos primeiros anos da infância. 
Toda mãe deveria ter o direito de ser informada de que nada irá adiantar: nenhuma revista sobre maternidade, nenhum guia de como criar os filhos, nenhum conselho de vó, mãe, tia ou quem quer que tenha sido mãe irá preveni-la ou livrá-la da culpa. 
A mãe sempre sentirá culpa pelo que fez ou pelo que deixou de fazer. Pelas palavras ou pela falta delas. Pelas horas que não passou com os filhos  e também pelas que dedicou em demasia. Por todos os "nãos", os "sim", os "porque eu mandei". Culpa, culpa, culpa. Mas ela pode e deve ser administrada. Carregue a culpa daquilo que te compete, mas de forma leve (se é que isso é possível!?). Compartilhe com quem também a carrega. Nada melhor que uma mãe para reconhecer e acolher outra. Faça as escolhas que estiverem ao alcance da sua sensatez e do seu sexto sentido, o super poder de toda mãe. Sempre de braços dados com o amor, esse parceiro inseparável que nos dá a garantia de que sim, vale a pena todos os dias.

sábado, 9 de abril de 2016

Ela só está em casa


Já ouvi pérolas do tipo: agora só está cuidando dos filhos? Só em casa? Só?? Peraí, alguém me explica como isso se resume em só? 
A rotina de uma mãe que só fica em casa começa cedo, considerando que um dos filhos tem apenas seis meses e o relógio biológico dele anuncia todos os dias, pontualmente às seis da manhã, que o dia dele já começou e ele está com fome. Em seguida a outra criança da casa acorda, demandando atenção e cuidados, afinal uma menina de 5 anos ainda não se vira completamente sozinha. 
Entre uma mamada do pequeno, o tema da escola da mais velha, uma fralda pra trocar, o faz de conta das bonecas, manhê quero meu café, mais uma mamada (livre demanda é a regra por aqui), cadê a pecinha do lego, mais uma fralda, mãe me ajuda a colocar essa roupa nessa boneca, mas onde está minha mochila, você já escovou o dente? Mãe quero fazer cocô, lembrei da fralda de novo, fazer o bebê dormir, tava quase dormindo e a mais velha o acorda, começa tudo de novo, não entra aqui gritando, ufa dormiu, mãe não acho minha fantasia de bailarina, tô com fome de novo, não quero banana nem mamão, quero bolacha, mas não é saudável, negociamos melancia e uma bolachinha, toma mais água, xixi de novo, o pequeno acordou, agora a papinha e depois mais uma mamada, a mais velha em crise de ciúmes, já tá na hora do almoço, não quero essa salada, só quero arroz, meu prato como frio, coloca logo esse uniforme, já estamos atrasadas, mas não quero essa camiseta de manga comprida, mas tá esfriando vc vai ficar gripada, o marido querendo trocar uma ideia, tem que pagar a conta de luz e da água, quero mais água mãe, mas gelada, mas vai doer a garganta, e tem que ser no copo roxo, você viu se entrou aquela grana? Ainda não,  e minha água mãe? E meu brinquedo, hoje é dia do brinquedo, hoje é dia da vacina, hoje quero chegar mais cedo, vamos pra aula, falamos depois, desce do carro que tá atrasada, pega a mochila, não corre senão você cai, volta pra casa já tem mais uma fralda, mais uma mamada e o banho da tarde, dorme, mas não muito, alguma coisa incomodando, lembrei que preciso ir ao banheiro, meu cabelo precisa de tintura, marco na semana que vem, não tem mais amaciante e nem sabão, precisa ir no mercado, graças a Deus tem empregada, imagina quem não tem, lembra de passar no banco pagar as contas e também ver se entrou o dinheiro, vou aproveitar que ele dormiu e já volto, droga esqueci de ir no banheiro, chega o bebê já tá acordado, fralda, mamada, fralda, brincar pra estimular, já pensou criança sem estímulo, fica lesada, já tinha que estar sentando, o da fulana já tá quase engatinhando, mais uma papinha, mais uma mamada, fralda e mais um soninho, mais velha já na hora de buscar na escola, mãe tô com fome, vem pro banho, não vou, vou contar até três, deixa lavar o cabelo direito, sai do banho, não saio, vem que teu irmão já tá chorando, os dois agora estão chorando, marido chega, queria de novo conversar, conversamos depois da janta, deixa secar teu cabelo, não quero, vai ficar doente, mãe tô com fome de novo, já vou, deixa fazer teu irmão dormir, mas você só da bola pra ele, mas ele é bebê, tá quase dormindo, mãe tô com fome, acorda o bebe, dorme de novo, vamos jantar, mas não quero esse suco, então toma água, não toma tanto, come mais um pouco, escovou já o dente? Você não janta comigo? Depois que der mama de novo, mãe tô com sono, vem vamos dormir, coloca o pijama, olha como pulo alto na cama, desce daí, não grita vai acordar teu irmão, já acordou, pequeno com o pai, mais velha comigo, conta uma história? Mais uma? Mais uma? Mãe, acorda, falta uma história!Mamãe eu te amo, eu também, pegou no sono graças a Deus, vou enfim jantar, ou será que tomo banho primeiro? Desce aqui que quero conversar, marido carente, barriga com fome, precisando de um banho, pensando que amanhã tem consulta e dentista, dos pequenos, não dela, e lembra que precisa voltar no dentista e também na gineco, já tô com sono vc vem? Já vou, só preciso de um banho, xampu na cabeça, parece que ouvi um choro, foi só impressão, coloca o pijama, agora choro mesmo, mais uma mamada, mais uma fralda, meia noite, droga, não lembrei que a reunião da escola é na hora do dentista, lembrei que amanhã começa a natação, falta comprar maiô novo pra mais velha, fralda pro pequeno, carne pro almoço, acho que tá esfriando vou cobrir as crianças, pega no sono, não por muito tempo, mais uma mamada, mãe quero xixi, sonho agitado, acorda mais uma vez, mais uma mamada, qual foi o último seio mesmo? Volta pra cama, despertador já tocou, mas já? 6:30 da manhã e lá vamos nós outra vez. E a falta de pontuação e a sensação de que estou atropelando as palavras é proposital, os dias parecem assim mesmo, sem ponto final, um turbilhão de informações, sentimentos e emoções. Sei que sou privilegiada em poder estar perto, bem pertinho dos meus filhos, fiz a opção de não terceirizar os cuidados e a criação e educação deles, coisa que nem toda mãe pode fazer, já que trabalhar fora é a regra e não a exceção, e o período de licença maternidade em nosso país está longe, bem longe de ser o ideal. A rotina não é fácil, seja para as mamães em tempo integral como para as que trabalham fora, porque para as que trabalham fora a rotina é ainda mais pesada, pois fazem jornada dupla, tem que lidar com o cansaço e problemas do trabalho e ainda encarar a rotina doméstica. Criar e educar filhos é um ato de entrega, de dedicação e muito trabalho diário. Envolve paciência, amor, mais paciência, um pouquinho de bom humor, uma pitada de lucidez, algumas colheres de boas risadas e alguns litros de lágrimas, muitos quilos de culpa, várias porções de responsabilidade e uma doação interminável e incondicional. E ajuda muito se o resto do mundo não vier com esse papinho brabo de ela “só”cuida dos filhos e “só” fica em casa!

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Sobre Marias que existem por aí

Essa é a história da Maria, mulher igual a muitas que andam por aí. Uns dizem que Maria não é feliz.
Mas Maria é feliz, e o melhor, já sabia que seria. O problema é que muitos, nessa era de todo mundo saber da vida (superficial) de todo mundo, às vezes confundem discrição com ausência de alegria.

Onde todos compartilham as supostas vidas perfeitas, Maria segue sem neuras, vivendo sua vida com quem interessa, e não com e para a maioria. Vez que outra Maria se depara com alguma ironia, algumas almas frias que insistem em minar sua sintonia, sua aura de quem vive sem se importar com o que não lhe traz simpatia. Intimidade é algo que traz e mostra só a quem interessa e merece dela participar, e não se importa se os outros tentam assim adivinhar o que se passa dentro dela. Os que a conhecem de forma real, sabem que como ela e com ela, vida melhor, não tem igual. E a recíproca é verdadeira, tais quais suas amizades e realidades bem verdadeiras. Existem muitas Marias, muitos Joãos assim. E pra cada Maria e cada João que são felizes e sabem que sim, existem muitos fulanos que gostariam de ser um tiquinho feliz assim, mas às vezes não conseguem, ou pior, não merecem. Mas isso pra Maria não faz diferença, não fica pensando e nem ocupando seu tempo com coisas assim. O que ela mais gosta mesmo é de seguir sorrindo pra quem importa, e fim.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Pequenos Contos - A primeira vez depois de muitas


Provavelmente, a última vez em que havia estado naqueles corredores, fazia mais de 06 anos. Parecia pouco tempo, mas a lufada de ar carregada de saudade quando desceu do carro deixou transparecer o imenso hiato que a separava daquele lugar. Algumas mudanças, percebeu, ocorreram. Departamentos em locais diferentes, placas de sinalização novas e estilizadas. Bancos e alguns pontos de venda de lanches e bebidas desapareceram. A antiga cantina, de longe, parecia ter se transformado em uma biblioteca ou livraria, não tinha certeza, mas podia ver prateleiras com lombadas coloridas de livros. Não ousou chegar mais perto, não soube bem por que.
Mas a atmosfera era a mesma. O mesmo cheiro de café, livros e cigarros. O burburinho acompanhado de uma música ao longe, não conseguia identificar se de alguma caixa de som ambiente, um carro estacionado ou um fone de ouvido sendo compartilhado. Talvez a música nem estivesse tocando de fato, talvez estivesse retumbando apenas em sua memória que agora recebia um afago e ao mesmo tempo um desconsolo, por não fazer mais parte do cenário.
Caminhou a passos curtos, desprovida de seu antigo tênis, que agora inevitavelmente dava lugar a um salto alto. Observou que, em sua grande maioria, estavam todos de jeans, camiseta e tênis. Alguns com acessórios e cortes de cabelo que pareciam gritar “eu não sou apenas mais um nesta multidão”. Caminhavam apressados, carregando livros e mochilas, sorrisos e uma leveza de quem ainda nem começou o que pretende terminar para o resto de uma vida toda. Será que escolheram certo? Será que só irão descobrir isso depois? Recorda o quanto era confiante em suas escolhas e no quanto se questionou e permaneceu em dúvida durante muito tempo depois que saiu dali.
Procurava pelo departamento de Jornalismo. Precisou pedir informações a um garoto mirrado, com um piercing no nariz e uma fala mansa, de quem já está de saída, no final de um dia de trabalho cumprido. Ele apontou a salinha da última porta à esquerda. Não se lembrava de ter estado muitas vezes por ali, talvez na conclusão do curso, quando o prédio provavelmente era ocupado apenas pelo setor de pós- graduação ou algo do tipo. Ou sua memória já estava lhe pregando peças ou a aparência sempre igual dos prédios já a estava confundindo. Ou talvez o fato de não ter cursado jornalismo, e sim direito, explicasse a falta de localização. E talvez explique também as dúvidas que lhe assaltaram a mente e lhe tiraram o sono no final do curso e no decorrer das tentativas de trabalhar no mundo jurídico.
Entrou na salinha, recheada de painéis, cartazes, livros e três telas que chamaram sua atenção. Novos tempos, novas conectividades.  Ali estavam, as maçãzinhas piscando, instaladas e donas do lugar, e cada uma das garotas por detrás das telas estavam absortas de tal modo que sua presença quase não foi notada.
Solicitou o que havia ido buscar. Foi prontamente atendida e, enquanto faziam o pacote da encomenda, pode observar ideias pairando no ar, curiosidade e criatividade rondando em cada canto, uma música que tocava em um dos computadores, os tênis, as bolsas coloridas de pano, as xícaras de café, os ingressos para uma festa logo mais, o painel de frases soltas, divertidas, reflexivas e sem sentido em alguns momentos.
Lembrou-se da expectativa dos primeiros dias, das primeiras amizades, dos sonhos sendo construídos, das tardes entre livros, histórias e cafés. Em alguns momentos, em outros corredores, do som de violões, dos olhares de conquistas, das rodas de conversas, das risadas. Da certeza de que nada seria para sempre, mas ainda assim da plenitude em viver cada dia, cada momento, sem perceber que estavam findando a cada hora, a cada mês e ano que transcorriam de forma lenta no início e depois simplesmente correram ao final.
Foi despertada por um “está pronto!". Pegou o pacote, meio envergonhada, por parecer uma bisbilhoteira, olhando para cada canto, para cada papel, para cada detalhe daquela sala que pulsava e cheirava a um não sei que de “estamos no caminho, ainda não chegamos ao destino final, quem quiser que pegue o maravilhoso trem da universidade”. Sim, a universidade. Caminhou de volta para o carro com aquela sensação amarga e ao mesmo tempo doce da saudade, de quando se sente falta de quem  era em um determinado tempo, em uma determinada época.

Imaginou-se novamente naqueles corredores, cursando uma nova faculdade, estudando novas coisas, conhecendo novas pessoas. Até seria bom, pensou. Mas não era ingênua. Jamais seria como da primeira vez. A inocência, o desconhecido, estes não poderiam ser repetidos, revividos. Talvez fosse diferente, melhor, com mais maturidade. Aproveitaria mais, estudaria mais, sofreria menos. Ou não. Só tinha a certeza de que jamais seria igual. E era essa toda a graça da coisa, pensou afinal.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Do que não se explica

A cada nova tragédia, renovamos nossas certezas e nossos medos: ninguém está livre da morte, basta estarmos vivos, pois ela está sempre a nos espreitar.
A certeza da morte é inerente a qualquer ser humano. O que nos aflige é justamente o fato de nunca estarmos preparados.  A morte está sempre tão presente que acabamos por esquecê-la. Acho que esse esquecimento é o que nos retira um pouco o medo e nos permite vivermos dia a dia sem notá-la, sem esperá-la, para poder desfrutar das incertezas, das mudanças, das alegrias e tristezas que a vida nos dá.
Somente quando ela se aproxima, quando nos espia pela janela ao lado, quando se coloca em nossa sala de estar, em nosso ambiente de trabalho ou em nossa cidade é que nos lembramos de sua presença, de sua inquietude, da dor que nos faz sentir, da compaixão que em nós faz florescer, da solidariedade que brota em cada abraço, da saudade impregnada em cada lágrima, do choque que nos coloca de frente com a realidade: todos um dia morreremos. Uns cedo demais, outros com muito tempo vivido. Alguns após despedirem-se para sempre, outros com um até logo inocente. Alguns dizem que é a ordem das coisas, a natureza agindo, Deus abandonando, o destino traçando os caminhos. São várias e infindáveis as tentativas de justificativas, ainda que por vezes descabidas e vazias de razões, de nexo, de causa e efeito. Não há o que ser explicado, não há o que ser reduzido. Há que se viver a perda, a dor e a saudade, mesmo sem entendê-la, sem aceitá-la.
Quando o inexplicável dá lugar à ausência, à saudade e ao que foi perdido, nos vemos de frente com o inexorável sentido que devemos dar ao que temos de mais valioso: nosso hoje. Esse também uma certeza, assim como a morte. 
Que aqueles que sentem hoje a presença pesada da morte e da ausência, possam ter em suas mentes e em seus corações a certeza de que a dor é inevitável, o sofrimento imensurável, a saudade será uma constante, mas que a vida continua e que, os que aqui ficam, partilham do sentimento de que os abraços são o melhor gesto e o melhor lugar para se aconchegarem, hoje e sempre.
Por isso, deixo aqui meu abraço à toda família Sperry. O Gabriel agora é efetivamente um anjo, onde quer que ele esteja.

sábado, 4 de outubro de 2014

Sonhos de arco-íris

Tudo pode ser sonhado
Mesmo que nunca concretizado
O sonho nos impulsiona sempre
Nos revitaliza, nos surpreende
Como o sol quente após um dia de chuva perene
Que traz consigo o mágico arco-íris, colorindo as nuvens insistentes
Já cansadas de suas formas sem cor
E esperando pelo brilho do sol
Que enfim nos faz sorrir 

E a nossa alma se abstrais



quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Pequenos contos - A espera

Já fazia uma hora que estava a esperar nas cadeiras duras do aeroporto. O livro que trouxera já pela metade, findara na última hora derradeira. O bater de pernas sinalizava uma angústia e um tédio sem fim. O quadro de voos sinalizava um atraso de pelo menos duas horas.
O vai e vem de pessoas passou a ser seu passatempo. Iniciou um jogo de narrativas para cada transeunte que por ali passava.
Avistou uma senhora baixinha e muito magra, com uma calça em tom caqui e um lenço estampado no pescoço. Cara de quem viaja sozinha, solteira, quem sabe? Ou com filhos já crescidos e que não fazem a mínima questão de acompanhá-la em suas viagens internacionais mundo afora. Engraçado que não imaginou a criatura com um par, um namorado, amante, o que fosse. A esquisitice da pequena senhora parecia não comportar um amor desses românticos. Espanto. Quem justamente se aproximou foi um senhor, da mesma forma baixinho e magro, com uma mesma calça caqui, um chapéu panamá e uma máquina fotográfica pendurada no pescoço. Diz para si mesma que cada qual tem o seu igual, e fica um tanto constrangida por ter de forma tão leviana julgado a pobre mulher pela aparência. Mas sua imaginação e seus olhos nesse momento não estavam ali para imprimir valores corretos a quem quer que fosse. O tédio a levava a divagar, pensar nas mais absurdas conjecturas.
O senhor logo a frente, com olhar tristonho e bengala a tiracolo, parecia não se importar com o vai e vem ao seu redor. Estava ali, mas era como se não estivesse. Estaria aguardando um voo de partida? Ou estaria já cansado de uma longa viagem, somente a espera de uma conexão? A pequena bagagem de mão, uma água e um livro, o qual ela lutava para enxergar a capa e o título, eram os únicos companheiros da figura que parecia já ter criado raízes na cadeira desconfortável.
E o tempo que não passava. E a maldita mania de sair de casa sem lembrar de trazer dois livros, ou pelo menos um que esteja iniciando, e não terminando. A livraria estava ali, logo a frente, à sua disposição. Mas a cota já havia se esgotado, e a pilha de queridos ainda não lidos já se acumulava em sua escrivaninha. Já tinha exemplares para os próximos seis meses, e um rombo no cartão de crédito que merecia sua atenção.
Passada mais uma hora, e o quadro de avisos marcando um atraso agora de três. Mais duas horas pelo menos de espera. E para o que exatamente? A voz dele ao telefone não parecia das mais amistosas. Um "precisamos conversar" um tanto quanto assustador e previsível. Dois anos de idas e vindas, em cidades, estados diferentes, projetos diferentes, só mesmo a vontade em estar junto é que era compartilhada.
O que será que ele queria com esse "precisamos conversar"? E assim, no meio da semana, sem feriado e nem folga programada?
Passou para as unhas, que já se faziam esconder, de tanto serem comidas em momentos de aflição. Pensou em comer alguma coisa, tomar um café talvez. Levantou-se para ir até a cafeteria, esquecendo que no colo estavam o celular e o livro que acabara de ler. O aparelho partiu-se em dois e o livro foi parar debaixo da cadeira do senhor de bengala. "Merda!", pensou alto, arrependendo-se de imediato, diante dos risinhos de uma garota com não mais do que quinze anos, rímel carregado e unhas curtinhas azuis.
Era o terceiro celular em menos de seis meses. Parou diante do senhor tristonho, pediu licença e recuperou o livro. Olhou mais uma vez para o quadro de voos. Faltava menos de meia hora para ele chegar. Uma aflição tomou conta de seus pensamentos e já ensaiava um discurso auto-suficiente do tipo tudo-bem-se-você-não-quer-mais-eu-vou-ficar-legal-não-se-preocupe-comigo. Mesmo sabendo que se isso acontecesse, ela iria chorar rios de lágrimas, comer montanhas de chocolate e escutar Nora Jones meses a fio.
E eis que o avião pousou, as pessoas desceram, uma a uma, crianças, velhos, mulheres, homens, famílias inteiras e até um grupo de viagem. Porque raios ele por último? Ele é sempre o primeiro, sempre só com uma bagagem de mão?! Piscou duas vezes quando avistou a figura empurrando o carrinho das malas, com três volumes e uma gaiola para transporte de animais. Mas pera ai: ele nunca trouxe o Boris. O Boris nunca saiu do apartamento. Gatos não gostam de viajar. O Boris não gosta de mim, pelo menos é o que parece toda vez que eu chego no apartamento dele. E o medo deu lugar a borboletas no estômago. Lembrou que não trocava os lençóis há uma semana, que a geladeira estava praticamente vazia e que seu prédio não aceitava animais. Os olhares se cruzaram e eles se perderam nesse olhar por alguns minutos, cada um com suas certezas e inseguranças. Ele sorriu. Ela sorriu. Boris miou, um miado sentido, de quem foi vencido. Teriam que procurar um lugar em que bichos fossem bem vindos. 



sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Da alma e do amor

O que me cala a alma não são frases de efeito
Mas sim o que cada um leva consigo dentro do peito
O amor mais bonito que nos carrega
E nos deixa sermos imperfeitos.

Amar sem esforço

Se pudesse escolher amar quem fosse
Seria o mesmo moço
Um amor que não requer esforço
Mas que permanece exposto
Entre os sorrisos frouxos que os apaixonados sabem mostrar.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

O meu lugar

Do tempo que às vezes insiste em passar mais rápido do que deveria
Tira e espreme toda a alegria e o entusiasmo
Por encontrar-se no lugar em que sempre deveria ter estado
Desde o princípio e o começo de tudo
Desde quando encontrou a primeira palavra e viu nela
Como quem assiste ao primeiro nascer do sol
O sentimento de total paz e felicidade
E encontro do que é seu
Tão seu que decide dividir com o mundo
Já que tanto sentimento transborda
E transcende
E invade e precisa de espaço
De outros olhares e outros saberes
Porque a palavra encontra
Em cada paragem e em cada encontro
Um novo sentido
Um novo estrondo
Um velho suspiro
O silêncio de espanto e o riso do novo
De ser, sentir e viver.
Com todo o coração e com toda alma.
Que agora se acalma mas nunca mais se cala.

Temperança

  Ser abrigo e entregar afeto  sem medo de perder-se em meio às incertezas.   Pés no chão e intuição no coração.