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sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Pequenos contos - Encontros e desencontros

Um aviso de mensagem piscou na tela do celular. Não fazia mais do que cinco minutos, havia pensado nele. Na verdade, desde o dia anterior, mini flash backs de uma noite de verão rondavam suas divagações nostálgicas de maneira recorrente, insistente. Prenúncio dos fios do destino se tecendo e reconectando? Seriam assim os sinais que o universo dispara em conspirações de acasos e desencontros? Lembrou da última vez que haviam conversado e o exato momento em que uma frase dela pode ter mudado toda uma história: "acho que devemos continuar apenas amigos".
A mensagem recebida minutos antes era despretensiosa, coisa de velhos amigos, separados pelo tempo e pelas escolhas que de alguma maneira selaram o fim de algumas possibilidades e tornaram possíveis outras tantas. Sentiu uma alegria e um alívio, pois apesar de tanto tempo, tantos caminhos e descaminhos, encontros e desencontros, eram ainda os mesmos. O tom da conversa parecia ser apenas a continuação do que deveria ter sido há mais de dez anos. Ou pelo menos um gostinho do que poderia ter sido apesar dos pesares, das afinidades nunca compartilhadas ou descobertas, do senso de humor recíproco e do reconhecimento de almas que já se esbarraram e que por algum motivo não se conectaram no devido tempo, deixando um vazio reconhecido e compartilhado pelos dois, uma possibilidade que ficou engavetada depois da sentença derradeira "apenas amigos".
"Deveríamos ter continuado bêbados no dia seguinte" foi o que ele disse quando ela sem pudor confessou que também tinha boas memórias daquela noite. "Merda de timing!" Constatou ela entre as verdades que precisam ser ditas quando a oportunidade aparece. O timing. Ele também tinha certeza de que em algum momento os dois se perderam por conta disso. O maldito tempo e a maturidade, aquela visão de cima das situações que definem os caminhos que seguimos e que, invariavelmente, logicamente, só se fazem presentes de forma prática e eficiente depois de alguns anos de terapia, muitas noites em claro e amores findos que poderiam ter sido.
Mas o engraçado é que ela sabia que sempre se sentira assim com relação a ele, e sabia também que algum dia teria a oportunidade de falar sobre isso. E se deu conta de que nunca criara nenhum tipo de expectativa. E por isso mesmo a reação e as palavras que dele vinham não eram surpresa para ela. Simplesmente eram como ela teria imaginado, se algum dia tivesse criado qualquer situação hipotética. Porque enfim sentiam o mesmo. Faltou tempo. Oportunidade para algo que poderia ter sido. E independente do resultado que as coisas tomassem, no mínimo teria sido bom. Muito bom. E isso que talvez ainda a leve a pensar "e se?". Porque pior do que descobrir que poderia não dar certo, é ter a certeza de que a tentativa teria sido no mínimo um caminho cheio de descobertas e possibilidades.
Avisa que precisa embarcar no voo que a levará para mais uma teia de fios que o destino conectou a tantos nós desde que se viram pela última vez. Justamente quando ele está voltando, ela está indo. Mas não se sente traída pelo acaso. O tempo já se encarregou de ensinar que na verdade tudo acontece exatamente quando tem que acontecer. E que somente o passado está findo e acabado. O futuro ainda é um mar de possibilidades, navegável conforme a força dos ventos e o tamanho das velas que o barco carrega. E, bem, ela está devagar, adentrando o mar, sentindo o vento novamente ditar o rumo das coisas, aprendendo a gostar do ritmo das ondas, sem pressa de chegar, onde quer que os ventos possam a levar. Ou o próximo voo rumo ao céu de Gibraltar.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Sobre Marias que existem por aí

Essa é a história da Maria, mulher igual a muitas que andam por aí. Uns dizem que Maria não é feliz.
Mas Maria é feliz, e o melhor, já sabia que seria. O problema é que muitos, nessa era de todo mundo saber da vida (superficial) de todo mundo, às vezes confundem discrição com ausência de alegria.

Onde todos compartilham as supostas vidas perfeitas, Maria segue sem neuras, vivendo sua vida com quem interessa, e não com e para a maioria. Vez que outra Maria se depara com alguma ironia, algumas almas frias que insistem em minar sua sintonia, sua aura de quem vive sem se importar com o que não lhe traz simpatia. Intimidade é algo que traz e mostra só a quem interessa e merece dela participar, e não se importa se os outros tentam assim adivinhar o que se passa dentro dela. Os que a conhecem de forma real, sabem que como ela e com ela, vida melhor, não tem igual. E a recíproca é verdadeira, tais quais suas amizades e realidades bem verdadeiras. Existem muitas Marias, muitos Joãos assim. E pra cada Maria e cada João que são felizes e sabem que sim, existem muitos fulanos que gostariam de ser um tiquinho feliz assim, mas às vezes não conseguem, ou pior, não merecem. Mas isso pra Maria não faz diferença, não fica pensando e nem ocupando seu tempo com coisas assim. O que ela mais gosta mesmo é de seguir sorrindo pra quem importa, e fim.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Pequenos Contos - A primeira vez depois de muitas


Provavelmente, a última vez em que havia estado naqueles corredores, fazia mais de 06 anos. Parecia pouco tempo, mas a lufada de ar carregada de saudade quando desceu do carro deixou transparecer o imenso hiato que a separava daquele lugar. Algumas mudanças, percebeu, ocorreram. Departamentos em locais diferentes, placas de sinalização novas e estilizadas. Bancos e alguns pontos de venda de lanches e bebidas desapareceram. A antiga cantina, de longe, parecia ter se transformado em uma biblioteca ou livraria, não tinha certeza, mas podia ver prateleiras com lombadas coloridas de livros. Não ousou chegar mais perto, não soube bem por que.
Mas a atmosfera era a mesma. O mesmo cheiro de café, livros e cigarros. O burburinho acompanhado de uma música ao longe, não conseguia identificar se de alguma caixa de som ambiente, um carro estacionado ou um fone de ouvido sendo compartilhado. Talvez a música nem estivesse tocando de fato, talvez estivesse retumbando apenas em sua memória que agora recebia um afago e ao mesmo tempo um desconsolo, por não fazer mais parte do cenário.
Caminhou a passos curtos, desprovida de seu antigo tênis, que agora inevitavelmente dava lugar a um salto alto. Observou que, em sua grande maioria, estavam todos de jeans, camiseta e tênis. Alguns com acessórios e cortes de cabelo que pareciam gritar “eu não sou apenas mais um nesta multidão”. Caminhavam apressados, carregando livros e mochilas, sorrisos e uma leveza de quem ainda nem começou o que pretende terminar para o resto de uma vida toda. Será que escolheram certo? Será que só irão descobrir isso depois? Recorda o quanto era confiante em suas escolhas e no quanto se questionou e permaneceu em dúvida durante muito tempo depois que saiu dali.
Procurava pelo departamento de Jornalismo. Precisou pedir informações a um garoto mirrado, com um piercing no nariz e uma fala mansa, de quem já está de saída, no final de um dia de trabalho cumprido. Ele apontou a salinha da última porta à esquerda. Não se lembrava de ter estado muitas vezes por ali, talvez na conclusão do curso, quando o prédio provavelmente era ocupado apenas pelo setor de pós- graduação ou algo do tipo. Ou sua memória já estava lhe pregando peças ou a aparência sempre igual dos prédios já a estava confundindo. Ou talvez o fato de não ter cursado jornalismo, e sim direito, explicasse a falta de localização. E talvez explique também as dúvidas que lhe assaltaram a mente e lhe tiraram o sono no final do curso e no decorrer das tentativas de trabalhar no mundo jurídico.
Entrou na salinha, recheada de painéis, cartazes, livros e três telas que chamaram sua atenção. Novos tempos, novas conectividades.  Ali estavam, as maçãzinhas piscando, instaladas e donas do lugar, e cada uma das garotas por detrás das telas estavam absortas de tal modo que sua presença quase não foi notada.
Solicitou o que havia ido buscar. Foi prontamente atendida e, enquanto faziam o pacote da encomenda, pode observar ideias pairando no ar, curiosidade e criatividade rondando em cada canto, uma música que tocava em um dos computadores, os tênis, as bolsas coloridas de pano, as xícaras de café, os ingressos para uma festa logo mais, o painel de frases soltas, divertidas, reflexivas e sem sentido em alguns momentos.
Lembrou-se da expectativa dos primeiros dias, das primeiras amizades, dos sonhos sendo construídos, das tardes entre livros, histórias e cafés. Em alguns momentos, em outros corredores, do som de violões, dos olhares de conquistas, das rodas de conversas, das risadas. Da certeza de que nada seria para sempre, mas ainda assim da plenitude em viver cada dia, cada momento, sem perceber que estavam findando a cada hora, a cada mês e ano que transcorriam de forma lenta no início e depois simplesmente correram ao final.
Foi despertada por um “está pronto!". Pegou o pacote, meio envergonhada, por parecer uma bisbilhoteira, olhando para cada canto, para cada papel, para cada detalhe daquela sala que pulsava e cheirava a um não sei que de “estamos no caminho, ainda não chegamos ao destino final, quem quiser que pegue o maravilhoso trem da universidade”. Sim, a universidade. Caminhou de volta para o carro com aquela sensação amarga e ao mesmo tempo doce da saudade, de quando se sente falta de quem  era em um determinado tempo, em uma determinada época.

Imaginou-se novamente naqueles corredores, cursando uma nova faculdade, estudando novas coisas, conhecendo novas pessoas. Até seria bom, pensou. Mas não era ingênua. Jamais seria como da primeira vez. A inocência, o desconhecido, estes não poderiam ser repetidos, revividos. Talvez fosse diferente, melhor, com mais maturidade. Aproveitaria mais, estudaria mais, sofreria menos. Ou não. Só tinha a certeza de que jamais seria igual. E era essa toda a graça da coisa, pensou afinal.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Pequenos contos - A espera

Já fazia uma hora que estava a esperar nas cadeiras duras do aeroporto. O livro que trouxera já pela metade, findara na última hora derradeira. O bater de pernas sinalizava uma angústia e um tédio sem fim. O quadro de voos sinalizava um atraso de pelo menos duas horas.
O vai e vem de pessoas passou a ser seu passatempo. Iniciou um jogo de narrativas para cada transeunte que por ali passava.
Avistou uma senhora baixinha e muito magra, com uma calça em tom caqui e um lenço estampado no pescoço. Cara de quem viaja sozinha, solteira, quem sabe? Ou com filhos já crescidos e que não fazem a mínima questão de acompanhá-la em suas viagens internacionais mundo afora. Engraçado que não imaginou a criatura com um par, um namorado, amante, o que fosse. A esquisitice da pequena senhora parecia não comportar um amor desses românticos. Espanto. Quem justamente se aproximou foi um senhor, da mesma forma baixinho e magro, com uma mesma calça caqui, um chapéu panamá e uma máquina fotográfica pendurada no pescoço. Diz para si mesma que cada qual tem o seu igual, e fica um tanto constrangida por ter de forma tão leviana julgado a pobre mulher pela aparência. Mas sua imaginação e seus olhos nesse momento não estavam ali para imprimir valores corretos a quem quer que fosse. O tédio a levava a divagar, pensar nas mais absurdas conjecturas.
O senhor logo a frente, com olhar tristonho e bengala a tiracolo, parecia não se importar com o vai e vem ao seu redor. Estava ali, mas era como se não estivesse. Estaria aguardando um voo de partida? Ou estaria já cansado de uma longa viagem, somente a espera de uma conexão? A pequena bagagem de mão, uma água e um livro, o qual ela lutava para enxergar a capa e o título, eram os únicos companheiros da figura que parecia já ter criado raízes na cadeira desconfortável.
E o tempo que não passava. E a maldita mania de sair de casa sem lembrar de trazer dois livros, ou pelo menos um que esteja iniciando, e não terminando. A livraria estava ali, logo a frente, à sua disposição. Mas a cota já havia se esgotado, e a pilha de queridos ainda não lidos já se acumulava em sua escrivaninha. Já tinha exemplares para os próximos seis meses, e um rombo no cartão de crédito que merecia sua atenção.
Passada mais uma hora, e o quadro de avisos marcando um atraso agora de três. Mais duas horas pelo menos de espera. E para o que exatamente? A voz dele ao telefone não parecia das mais amistosas. Um "precisamos conversar" um tanto quanto assustador e previsível. Dois anos de idas e vindas, em cidades, estados diferentes, projetos diferentes, só mesmo a vontade em estar junto é que era compartilhada.
O que será que ele queria com esse "precisamos conversar"? E assim, no meio da semana, sem feriado e nem folga programada?
Passou para as unhas, que já se faziam esconder, de tanto serem comidas em momentos de aflição. Pensou em comer alguma coisa, tomar um café talvez. Levantou-se para ir até a cafeteria, esquecendo que no colo estavam o celular e o livro que acabara de ler. O aparelho partiu-se em dois e o livro foi parar debaixo da cadeira do senhor de bengala. "Merda!", pensou alto, arrependendo-se de imediato, diante dos risinhos de uma garota com não mais do que quinze anos, rímel carregado e unhas curtinhas azuis.
Era o terceiro celular em menos de seis meses. Parou diante do senhor tristonho, pediu licença e recuperou o livro. Olhou mais uma vez para o quadro de voos. Faltava menos de meia hora para ele chegar. Uma aflição tomou conta de seus pensamentos e já ensaiava um discurso auto-suficiente do tipo tudo-bem-se-você-não-quer-mais-eu-vou-ficar-legal-não-se-preocupe-comigo. Mesmo sabendo que se isso acontecesse, ela iria chorar rios de lágrimas, comer montanhas de chocolate e escutar Nora Jones meses a fio.
E eis que o avião pousou, as pessoas desceram, uma a uma, crianças, velhos, mulheres, homens, famílias inteiras e até um grupo de viagem. Porque raios ele por último? Ele é sempre o primeiro, sempre só com uma bagagem de mão?! Piscou duas vezes quando avistou a figura empurrando o carrinho das malas, com três volumes e uma gaiola para transporte de animais. Mas pera ai: ele nunca trouxe o Boris. O Boris nunca saiu do apartamento. Gatos não gostam de viajar. O Boris não gosta de mim, pelo menos é o que parece toda vez que eu chego no apartamento dele. E o medo deu lugar a borboletas no estômago. Lembrou que não trocava os lençóis há uma semana, que a geladeira estava praticamente vazia e que seu prédio não aceitava animais. Os olhares se cruzaram e eles se perderam nesse olhar por alguns minutos, cada um com suas certezas e inseguranças. Ele sorriu. Ela sorriu. Boris miou, um miado sentido, de quem foi vencido. Teriam que procurar um lugar em que bichos fossem bem vindos. 



sábado, 12 de outubro de 2013

Do aprender nas palavras

Ainda se encontra na superfície, acima do lugar profundo em que as palavras são mais densas, mais trabalhadas. Mas por não ter medo de ir até o fim, mesmo que o fim seja infinito em um lugar que palavras, sentimentos e emoções se confundem, se fundem e se traduzem, é que busca nas palavras de outros, em outras vidas e outro encantos, o que ainda não aprendeu com ela própria e com suas ainda pequenas dores, pequenos amores e dissabores, de uma vida ainda curta, porém finita, que ainda grita que o fim, bem, este sim, ainda se encontra distante.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Hermano viajante

Mais que viajar, ele vai explorar o mundo e a si mesmo, com a bagagem de quem tem a vontade de conhecer, descobrir, experimentar e sentir cada momento que um ano no velho mundo pode proporcionar. Meu hermano, meu gurizinho, o cuore fica apertado, mas a alegria em vê-lo cada vez mais você como você mesmo, torna a distância apenas um detalhe em meio a mais um sonho sonhado e que agora começa a tomar forma.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Pequenos contos - No seu lugar

Havia quase 10 anos desde que tinha mudado completamente sua vida.
Uma proposta de trabalho foi suficiente para o desvio do rumo de todos os planos já praticamente consolidados, a mudança de cidade e consequentemente, o distanciamento do que fora construído em uma vida toda.
Foi por acaso que encontrou, em uma loja no cento da cidade, uma amiga da antiga turma. Quanto tempo, como você está, todo mundo sentiu tua falta, eu também me mudei, mas e ai guria, como não deu mais notícias? O repertório básico dos encontros nostálgicos que encantam no primeiro momento, para depois deixar uma sensação de vazio, de não mais pertencer a você tudo aquilo que em questão de segundos foi resgatado da memória.
Despediram-se, sem nem ao menos trocarem telefones, e-mail ou qualquer forma de contato, como se isso não fosse necessário, como se no dia seguinte fossem se encontrar, como antigamente.
Passou o resto do dia melancólica, com a sensação de que alguma coisa ficara perdida no tempo, no espaço que antecedeu toda a vida que conhecia desde o dia em que partiu da cidade natal e decidiu que faria tudo diferente.
Sentia saudades das pessoas sim, dos momentos bons que viveu e de tudo que ficara para trás. Mas o que mais doía e dava a sensação de ter perdido algo, era a saudade de si mesma. Da pessoa que era naquele tempo. Não que não estivesse feliz consigo mesma agora, mas era estranho pensar em si e não encontrar mais o que fora.
Será que mudara tanto? E teria sido para melhor? Impossível mensurar. Situações diferentes, idades diferentes, pessoas diferentes, sonhos diferentes.
Chegou em casa, abriu a porta e sentiu o cheiro gostoso de comida que vinha no ar e a música suave que tocava na sala.
Imediatamente, sentiu-se confortada. Ele já a esperava com o jantar, como de costume. Era muita sorte que ela, uma nulidade completa no quesito cozinha, tivesse encontrado alguém que amasse cozinhar.
A melancolia passou, a saudade deu lugar a uma completa certeza de quem ela era e que assim estava tudo no seu devido lugar.Quem fora, o que vivera, estava muito bem catalogado nos melhores momentos de sua vida, nas caixinhas mentais que ao longo do tempo vão se formando na memória.
Não sentiu mais o vazio, nem a sensação de perda. Encontrou-se novamente. Afinal, havia retornado para casa.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Pequenos contos - A viagem

Terminou de conferir tudo que tinha arrumado na mala. Roupas pesadas, roupas leves, tênis, botas, sandálias, chinelos. Casacos estava levando apenas dois, sabia que no fim acabaria comprando outro por lá mesmo. Biquini o da terrinha. Comprar biquini no exterior não dá, não é a mesma coisa. E se for comprar um modelo braisileiro, será apenas prá pagar os olhos da cara. Mas nem sabia se iria usar. Estava levando por pura precaução.
Um ano fora. Será que vai passar rápido? O suficiente para voltar outra pessoa? Fotos, livros (para o caso de sentir falta do bom português), até o travesseiro de todos os dias. Pode ficar longe do pai, da mãe, dos irmãos, do cachorro que já estava ficando deprimido, pressentindo a partida. Mas do travesseiro, ah, esse não. As noites só são realmente bem dormidas se for com ele.
Sentou em cima da mala para fechá-la. Ter conseguido colocar tudo em uma única mala já foi uma proeza. Estava agora pensando na sucessão de fatos que a levaram a estar ali, sentada em sua mala, com uma passagem nas mãos.
Considerava o ponto inicial de tudo a tarde em que teve que ouvir aquelas palavras embargadas, o choro contido. Não a amava mais. Tinha um grande carinho, sim, mas era só. Pensou que teria sido melhor se ele dissesse que a odiava. Ficou ali, olhando para ele, tentando entender o que estava acontecendo. Não conseguiu dizer muito. Aceitou a situação, abraçaram-se e ele partiu.
Começava então a sucessão de novos fatos, novos olhares, novas fugas.
O término da faculdade trazia a sensação de não saber o que fazer, que rumo seguir. Iniciou um curso de fotografia, mais para se distrair, observar, ao invés de ser observada.
Ao final do curso, um dos professores entregou-lhe um folder contendo informações acerca de uma espécie de extensão, por assim dizer, do curso que acabara de concluir. Spéos Paris Photographic Insitute. Paris. Já havia pensado várias vezes em ir para Paris. Parecia um tanto quanto impossível que fosse para lá nessas condições. Sozinha, com uma câmera não mão e quase nada de francês. Somente o básico, absorvido em um rápido curso intensivo feito em umas férias de verão.
E agora estava ali, sentada em cima de uma mala, com o cartão de embarque em mãos. Embarque no portão 8, às 18h50. Destino: Aéroport Roissy-Charles-de-Gaulle, Paris.
Estava feito. A ansiedade já havia dado lugar a um início de melancolia. Uma espécie de saudade antecipada. O estranho é que o que sentia não era pela família que não veria por exatos 12 meses. Nem por ele, que há tempos já havia se acostumado com o vazio deixado.
Era uma saudade dela mesma. Uma sensação de que na volta, não seria mais o que era naquele exato momento.
Lembrou que somente decidiu se inscrever no curso depois de ler em algum lugar que
a melhor maneira de se reinventar é despir-se de tudo o que você já foi, afastar-se de tudo o que te formou, para depois regressar e encontrar um novo eu.
Reinventar-se. Era essa a palavra chave. Foi essa ânsia por uma metamorfose que a levou onde se encontrava agora.
Guardou o cartão de embarque na bolsa, junto com a carteira, a medalha de Nossa Senhora Aparecida dada pela mãe e um livro para ler na viagem. A máquina fotográfica, comprada recentemente, daquelas mais profissionais, carregava em mãos. Quase profissional, na verdade, afinal, não era prá tanto assim o seu dom com fotografia. Mas já era um começo. Ou melhor, um recomeço.
Suspirou, como se isso bastasse para estabelecer o fim de um ciclo e o início de outro.
Paris... Paris. Paris!!Repetiu em pensamentos.
Sua mãe bateu na porta do quarto. Estava na hora, tinham que sair, para não correr o risco de atrasar.
Lançou um último olhar em tudo ao seu redor. Tirou uma foto do quarto, prá lembrar como era antes. Tinha esse problema: gostava de guardar as memórias de forma bem viva, nutrindo o passado, não importando quão doloroso pudesse ter sido. O mural com recados e fotografias ainda intacto, com todas as memórias ainda ali, latentes, silenciosas.
"Mãe, me faz um favor? Antes de eu voltar, você encaixota e guarda todas essas fotos e o resto de tudo que está no mural?". A mãe respondeu que sim, só balançando a cabeça, com um ar de cumplicidade.
A mãe saiu arrastando a mala pesada, gritando para o pai que estavam descendo, que ele já deveria estar tirando o carro da garagem.
Fechou a porta, como se estivesse fechando uma etapa de sua vida, virando a página de uma história. Pensou novamente no "reinventar-se". Olhou a foto que acabara de tirar do quarto que deixava. Sorriu e a apagou da memória da máquina.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Pequenos contos - A escolha

Juntou os pedaços que ainda restavam. Era um antigo vaso chinês que sua mãe jurava ter sido comprado em uma das melhores casas de decoração, quando sua avó ainda viajava pelo mundo.
Agora somente cacos. Bem estilhaçados, espalhados pela sala. Em baixo da mesa, cobrindo o tapete e o sofá. Partiu-se em mil pedaços, assim como seu coração, que batia descompassado. Podia houvir ainda a última frase e a batida seca da porta: "Prá mim chega". Assim, simples, seco, cortante.
Atirar o vaso contra ele definitivamente não foi a melhor idéia, mas também não foi o motivo da partida.
Anos de desgaste, de brigas, de encontros e desencontros. Mais desencontros, é verdade. A cada discussão, o pedido de desculpas. O silêncio das palavras não ditas e aquela pontinha de esperança estúpida, a cegueira da rotina, a acomodação do "a gente supera".
A gota d'água veio de uma dessas bobagens que sozinhas, são exatamente isso: meras bobagens. Porém, quando carregadas com o peso de todo um cansaço e de um nó na garganta, tomam proporções capazes de finalmente colocar um ponto final em uma relação em que mais se perdia do que se ganhava.
O fato de não conseguirem decidir de forma pacífica um hotel para uma viagem de fim-de-semana iniciou toda a discussão, que após todo o discurso de acusações e ofensas, juntamente com uma restrospectiva de todos os erros cometidos no passado, teve um desfecho quase cômico, não fosse a vontade desesperada de chorar e sair na sacada pedindo prá ele voltar. Um vaso quebrado, o silêncio na sala e o estranho sentimento de alívio e saudade, porque afinal, a esperança estúpida já começava a dar sinais de sua presença.
Mas agora tinha a plena noção e certeza de que ele não voltaria. O vaso tinha sido demais. Era grande, pesado, não sabia como tinha conseguido levantá-lo e ainda arremessá-lo em sua direção. Sabia, porém, que havia chegado no seu limite e que isso significava não mais voltar atrás, não mais procurar motivos para tentar de novo.
Terminou de varrer e recolher os cacos azuis. Colocou-os em uma caixa e guardou no fundo do guarda-roupas. Não conseguiu jogar no lixo. Era como se estivesse jogando fotos ou cartões, desprezando uma vida toda de memórias.
Ligou para o hotel que havia escolhido. Foi sozinha, sem saber bem o porquê, mas com a sensação de que afinal, era a melhor escolha.

Temperança

  Ser abrigo e entregar afeto  sem medo de perder-se em meio às incertezas.   Pés no chão e intuição no coração.