terça-feira, 28 de julho de 2026

Temperança

 Ser abrigo e entregar afeto 

sem medo de perder-se em meio às incertezas. 

Pés no chão e intuição no coração. 

Doce espera

 Te espero contando os dias, na doce  expectativa de que depois disso, sejam incontáveis  os dias perto de ti. 

Casa concha



Escrever sobre emoções é sempre um mergulho no infinito de possibilidades que encontramos dentro de nós mesmos. Me vejo sendo instigada a escrever sobre algo que eu amo, ou que eu odeio ou que me deixa irritada ou feliz. Parece um exercício fácil de escrita, mas quando começo a pensar nesses sentimentos me sinto sendo julgada, principalmente se o tema for ira, ódio, incômodo. Uma vida inteira passei tentando ser a boa menina, a que não erra e não decepciona; logo as chances de ser rejeitada ou de ser mal vista reduziriam. Ao longo dos anos consegui criar uma concha densa de medos, mágoas e incertezas. Uma concha que há muito me permito sair de vez em quando e explorar o entorno, livre desses sentimentos. Mas por vezes me vejo tentada a voltar pra ela. E volto, sinto, me reconecto com a criança interior que chora e sente-se julgada e inadequada. E vejo, de forma clara, que reconheço que me pertence tudo o que passei, o que vivi e o que senti. E uso como ferramenta justamente pra me reconectar com a adulta que me tornei e que, ainda que de forma silenciosa e às vezes modesta, se sente orgulhosa dos espaços que vem ocupando, das conquistas alcançadas e dos afetos cultivados. Acolher nossa criança do passado nos permite ressignificar e amar nosso adulto do presente. Acolha-se.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Terça casa

Desabam na cama, lado a lado, como todas as terças nos últimos dois meses. Saciados, suados e gozados. Ele segue para o banheiro. Ela ainda termina de degustar o sabor dele na boca, o cheiro de sexo que vem da pele e a mistura adocicada dos perfumes dos dois. Já sabe a sequência de cor. Presta atenção aos barulhos e rotinas e os memoriza como pequenos tesouros contidos em pouco mais de três horas semanais de contentamento. Os cinco minutos no chuveiro, em que ele assovia seu samba favorito, o retorno com um sorriso de orelha a orelha e a pergunta de sempre:  “gozou gostoso, bonita?”. Os beijos na bunda e nas costas, o andar despretensioso em direção a sacada, o jeito carinhoso dele puxar os banquinhos para sentar enquanto acende o cigarro e traga de forma lenta, como quem procura uma forma de prolongar o prazer. Solta a fumaça e sorri, um sorriso branco que se emoldura na pele negra. A encara por alguns minutos como quem tenta ler pensamentos, imaginando porque fica tão quieta depois que eles trepam feito coelhos. E ela ali, as pernas erguidas e os pés brancos com unhas vermelhas. Mesmo tendo gozado na cama, goza ainda mais no silêncio que os dois fazem sentados lado a lado, numa intimidade que vai para além dos lençóis e dos gemidos. Ele apaga o cigarro e a puxa pro colo, uma dança que já conhece tão bem. Se encaixam novamente, o beijo com gosto de tabaco, a alegria morna que ela há tanto tempo não sentia. O abraço demorado seguido da constatação: moraria para sempre nessas terças-feiras.


Covardia

 A notificação de mensagem chegou e abri imediatamente o aplicativo, dedos tremendo pelas notícias do exame de ultrassom. Mas a imagem que pipocou na tela do celular atingiu minha retina de forma visceral, refletindo num calafrio que chegou ao meu estômago e causou náuseas agudas: sangue, muito sangue, algo branco que não conseguia distinguir, um lençol ou uma toalha, agora tingido de um vermelho vivo. Acabara de pousar em São Paulo justamente para dar a notícia pessoalmente a minha mãe: seria pai. Seria, seria, seria. Não mais. O choro silencioso veio na mesma intensidade de quando escutei o barulho do coraçãozinho no primeiro exame. O vazio que tomou conta do peito paradoxalmente pesava como um tijolo quente, um misto de raiva e melancolia misturados a um alívio estranho. Tinha levado um mês para me acostumar com a ideia, consumi noites sem dormir pensando nisso. Por fim, a alegria tornou-se maior que o medo e a vergonha. A sensação de alívio eu sabia bem porque: não precisaria contar que seria pai. Que somente eu seria pai. E não nós, como tanto desejado em todos os anos de casados. Tirei a aliança do bolso e a coloquei de volta no dedo. Chamei um Uber e digitei o endereço de casa. Enquanto o motorista tentava iniciar uma conversa sobre o tempo, respondi à mensagem com um “talvez Deus sabe o que faz”. A resposta veio curta e seca: “babaca covarde”. Apaguei o histórico de mensagens e o contato dela. Sou mesmo um babaca covarde.


quinta-feira, 23 de julho de 2026

Amores indisputáveis


Na cafeteria quase vazia, escolheu uma mesa de canto, próxima à porta de saída, estratégia adquirida depois de tantos encontros que teve vontade de correr  após os primeiros quinze minutos. Mesmo prometendo apagar os aplicativos de relacionamento há mais de seis meses, continuava na busca insalubre em matches duvidosos. Tamborilou incessantemente os dedos nus na mesa, tomou o último gole do segundo expresso curto, as pernas cruzadas e o pé em ritmo acelerado. Olhou para o celular: trinta minutos atrasado. Qual a regra para abandonar um encontro no qual você está levando um bolo? Começou a digitar uma mensagem, mas apagou. Foda-se, meia hora já é tempo suficiente. Fez sinal para a atendente trazer a conta, enquanto procurava a carteira na bolsa.

A nota chegou, acompanhada de um mini cupcake de chocolate. Antes que desse tempo de dizer que não havia pedido nada, a garçonete apontou com o polegar em direção ao cliente que aguardava por um café: “foi ele”. Encostado no balcão com as pernas entrelaçadas, continuava com o mesmo sorriso doce, um canto da boca subindo mais que o outro, formando uma covinha pequena e redondinha só do lado esquerdo, a barba por fazer que quando roçava no rosto a fazia sentir cócegas e os óculos de grau que sempre embaçavam quando se beijavam. Ele acenou e disse oi, levantando o copo de café pra viagem.

Foi o que bastou para ela sorrir, seus pelos se arrepiarem de forma sistemática nas pernas e depois nos braços, o coração acelerando, a garganta secando. Levantou a mão para acenar, derrubando a plaquinha de identificação da mesa e fazendo a garçonete revirar os olhos e dar as costas. Ele riu balançando a cabeça e veio na direção da mesa. Ela levantou de forma desajeitada, tão desajeitada quanto o abraço que veio a seguir, impregnado com o perfume cítrico que invadia seus sentidos e fazia a memória rodopiar, as mãos e os lábios tremiam. “E aí, guria? Como você está?” A intenção era dizer que estava bem, tudo bem, tranquilo. Mas o que saiu foi um “com uma puta saudade de você” assim no seco, sem filtro, sem aviso. O sorriso desapareceu. Olhou fundo nos olhos castanhos esverdeados que já estavam cristalinos e com lágrimas em fuga rápida, enxugadas imediatamente pelos dedos longos dela, deixando um rastro de rímel nas bochechas rosadas. Ele sussurrou  “mais uma vez, me perdoa, por favor” enquanto ela fechava os olhos e sentia ele afundar o nariz em seu pescoço, pra depois beijar de forma demorada sua testa. Ela não tinha coragem de olhar e encarar o inevitável: ele dando as costas e rumando em direção à porta. A mesma cena que há tempos martelava na cabeça e que se repetia em devaneios e ruminações de “e se?”.

Quando enfim conseguiu abrir os olhos pode ver ele entrar no carro, entregar o café para quem o esperava. A cara blasé dela, a atenção fixa na tela do celular, sem nem ao menos olhar nos olhos dele. “Essa vaca não sabe a sorte que tem”, foi o que pensou. Ele então virou-se para o banco de trás, o sorriso agora largo e iluminado, de uma forma que ela nunca tinha visto, as mãozinhas e os pézinhos em festa. O barulho de uma notificação de mensagem a tirou do transe, “desculpa gata, vai ter que ficar pra uma próxima, falamos”. Um “vai sonhando” ecoou alto e raivoso. Bloqueou o contato e saiu para a noite que já caía, assim como a garoa fina que se misturava com as lágrimas que ela já não mais se importava em conter. Existem amores indisputáveis.


Temperança

  Ser abrigo e entregar afeto  sem medo de perder-se em meio às incertezas.   Pés no chão e intuição no coração.